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Vem aí um novo mundo


Antes que a alvorada de um novo tempo se anuncie no horizonte, a humanidade experimentará ainda o gosto amargo da experiência do ocaso do capitalismo consumista tal como conhecemos hoje. O motivo é simples e ocorre em âmbito planetário de modo irreversível. O esgotamento dos recursos naturais, causado pela exploração predatória baseada no lucro desenfreado para atender a uma demanda gigantesca, vai, pouco a pouco, levando a Terra para um estado de estresse e escassez. Os primeiros sintomas se apresentam na poluição dos recursos hídricos, na extinção de muitas espécies, na acidificação das águas dos oceanos e mais recentemente nas grandes migrações de massas humanas fugidas da fome e da devastação das múltiplas guerras. Esse cenário de crise anunciada leva os cientistas a acreditarem inclusive que estamos, a passos acelerados, na direção da sexta extinção em massa, na qual 3/4 das espécies do planeta simplesmente vão desaparecer. 

Ainda assim, a mesma espécie humana que tratou de destruir o planeta com uma das mãos sobreviverá à hecatombe que provocou e, por meio do atributo da inteligência e da razão, reerguerá seu lar no universo. Sinais desse renascimento, implantados lá atrás, nos anos 1960, pela filosofia das comunidades hippies, começam a dar frutos ainda tímidos. Organizações não governamentais lutam pelo fim da poluição, pela difusão dos lemas reciclar, reutilizar, reduzir e repensar, pela crescente tomada de consciência sobre o destino comum e, sobretudo, pela utilização das redes de informações que, aos poucos, esclarecem as populações para a necessidade vital de respeito ao meio ambiente como única forma de sobrevivência e perpetução da espécie. 

Uma dessas ações, que vem ganhando grande impulso global, é justamente a chamada economia do compartilhamento, no qual a acumulação pessoal e egoísta de bens é substituída pelo compartilhar, emprestar ou simplesmente ceder o bem a outrem. É a volta do escambo, feito agora também com a ajuda da tecnologia, nos moldes do século 21. 

Economia compartilhada do tipo colaborativa é feita de pessoa para pessoa diretamente, movimentando hoje bilhões de dólares ao redor do mundo. Steven Strauss, da Universidade de Harvard, alega que a classe adepta da nova modalidade de economia solidária não está preparada para liderar ou assumir emprego nos moldes da economia moderna. Nota-se uma pontinha de inveja no professor por ter descoberto que a matemática da felicidade não é a soma nem multiplicação, mas a divisão. 

Nesse tipo de comércio, o valor do produto é dado pela necessidade. Um bom exemplo de EC é a start-up (empresa ponto com) de partilhamento de carro, táxi. Por meio de um aplicativo (Über, Zipcar, Car2Go...), a pessoa escolhe um carro cadastrado indo na direção desejada e embarca por valor mais em conta. Outros exemplos são o Ebay, OLX, ou a forma de pagamento seguro pelo PayPal. Compartilhar casas pelo House in Rio, 9flats, Wimdu ou Airbnb para conhecer outros estados e países, livros, Tradesy para roupas e uma infinidade de produtos com impactos mínimos no médio ambiente e sobre os recursos naturais.

Ainda é cedo para saber os reais efeitos que esse tipo de transação pessoa a pessoa provocará na economia mundial, na arrecadação de impostos e quais serão os outros reflexos. O certo é que o movimento veio para ficar e cresce em proporções geométricas. De outro lado, crescem as expectativas de que num futuro próximo cada casa, rua ou bairro produzirá o próprio volume de energia elétrica, reciclando também a água (reúso) e destinando corretamente a produção de lixo para reciclagem. Vem aí um novo mundo, com novos padrões de consumo e talvez a esperança de nos redimir de séculos de desperdícios, destruições e ostentações.



Por: Circe Cunha – Coluna “Visto, lido e ouvido” -  Ari Cunha – Correio Braziliense 

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