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QUESTãO FUNDIáRIA » Manobras de Vigão (Wigberto Tartuce) para regularizar terra

As chácaras transferidas para parentes de Wigberto Tartuce estão na região do Caub, no Riacho Fundo 2

Documentos de cessão de chácaras a três empreendimentos de familiares do ex-deputado tiveram registros em 2003, mas empresas foram criadas em 2014
Ao lado, fac-símile do registro das empresas; abaixo, a doação das terras

Imóveis rurais de propriedade do empresário Wigberto Tartuce e de familiares teriam sido regularizados com fraude processual e uso de documentos falsos para ocultar bens em nome do ex-deputado — que está com o patrimônio bloqueado por decisão judicial desde novembro do ano passado. O trâmite do processo de regularização de terras rurais do empresário também chama atenção: entre a chegada da documentação à Terracap, em 20 de novembro de 2014, e a aprovação do pedido, em 8 de dezembro, se passaram apenas 18 dias. Processos semelhantes demoram, pelo menos, seis meses.

Tartuce tem três chácaras na região do Caub, no Riacho Fundo 2. Cada terreno estende-se por 5,9 hectares, o equivalente a quase seis campos de futebol. No processo de regularização das terras, foram anexados documentos de cessão das áreas do empresário para três empresas de propriedade de familiares de Tartuce: Bsb Agropecuária, Sigma Agropecuária e Agropecuária Brasília. Toda a documentação, com firma reconhecida em cartório, tem data de 18 de fevereiro de 2003. A papelada aparenta legalidade, a não ser por um detalhe. As três empresas foram criadas apenas em 2014, segundo dados da Receita Federal. A data da transferência das propriedades é um dos indícios da suposta fraude. Todos os documentos de cessão têm timbre de reconhecimento de firma do cartório Tabelionato Leal, em Alexânia (GO).

No processo da Sigma Agropecuária, consta que Wigberto Tartuce repassou a propriedade da Chácara 81 do Caub à empresa, registrada em nome da filha Flávia Veloso Tartuce, em 18 de fevereiro de 2003. Mas, ao consultar o CNPJ da Sigma Agropecuária, é possível constatar que a empresa foi criada em 3 de junho de 2014, pouco antes de a família dar entrada no processo de regularização do terreno. A Bsb Agropecuária Ltda, também de Flávia, existe desde maio de 2014. Já a empresa Agropecuária Brasília Ltda, da mulher de Tartuce, Luísa Helena Veloso Tartuce, teve registrado naReceita Federal em julho do ano passado.

Com a artimanha, a família Tartuce regularizou as três chácaras. A documentação saiu em nome de parentes do empresário. Assim, foi possível driblar o bloqueio de bens determinado pela Justiça Federal no Distrito Federal, por conta da condenação do Tribunal de Contas da União (TCU) diante de acusações de desvios de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Leia Memória).

A denúncia da suposta falsificação da cessão de direitos das terras chegou ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) em fevereiro deste ano. O caso foi encaminhado à Promotoria de Defesa do Patrimônio Público e Social (Prodep). Em 27 de abril, o promotor Roberto Carlos Silva enviou ofício à Terracap pedindo informações sobre o caso. A companhia tem 10 dias para responder. O MP quer saber como uma empresa aberta em 2014 pode ter realizado transações imobiliárias em 2003. 

Na denúncia encaminhada à Promotoria, também há menção ao curto tempo de tramitação dos pedidos de legalização. No caso da Bsb Agropecuária, em 18 dias, os técnicos da empresa analisaram o processo e a Diretoria Colegiada aprovou a regularização. Todos os imóveis rurais legalizados no mesmo dia da chácara da Bsb Agropecuária tinham processos tramitando desde 2011. 

A assessoria de imprensa da Terracap informou à reportagem que, “quando o processo é analisado pela empresa e há identificação de eventual erro, o pedido não é deferido”. Ainda segundo nota enviada pela companhia, “a tramitação de todo e qualquer processo no âmbito da Terracap e da Secretaria de Agricultura observa manual de rotina”. O Correio procurou o advogado Herman Barbosa, que representa Tartuce nos processos no TCU e relativos ao bloqueio de bens. Até o fechamento desta edição, ele não havia localizado seu cliente para dar explicações sobre as denúncias.

Lei Distrital como base

Tartuce tem o patrimônio bloqueado pela Justiça desde novembro de 2014

A regularização de terras rurais no Distrito Federal se arrasta desde os anos 1990. As concessões de uso, entregues aos produtores na época da inauguração de Brasília, venceram e o Ministério Público do DF exigia concorrência pública para a renovação. A Lei Distrital 34.931/2003, que trata sobre a legalização das áreas rurais, resolveu o impasse e é atualmente o instrumento legal para a regularização de chácaras e fazendas. A legislação obriga que o ocupante “comprove, em processo administrativo junto à Secretaria de Agricultura, que detém, por si ou por sucessão, o imóvel público desde 27 de agosto de 2004, com atividade rural efetiva”. 


A área deve ter, no mínimo, dois hectares. A lei estabelece que a taxa anual de concessão de uso da área ocupada corresponde a 0,5% sobre o valor da terra nua. Atualmente, cada hectare de área rural tem o valor médio de R$ 10,3 mil. Dessa forma, os ocupantes pagam uma taxa anual de R$ 51 por hectare. No caso das chácaras de Wigberto Tartuce, cada propriedade custa anualmente R$ 300 ao empresário. 

Memória - Dívidas de R$ 29 milhões

Por conta da acusação de usar laranjas para ocultar patrimônio, a 18ª Vara Federal do DF determinou a penhora de bens de empresas do ex-deputado Wigberto Tartuce em novembro do ano passado. Ele responde a 19 ações de execução na Justiça Federal e dever um valor aproximado de R$ 29 milhões, segundo a Advocacia Geral da União. A Justiça entendeu que foram realizadas manobras para ocultar bens e que isso representa uma fraude à execução. Wigão, como é conhecido, foi condenado pelo Tribunal de Contas da União por desvios de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador, quando era secretário de Trabalho do DF, em 1999. Em 2006, quando concorreu a deputado distrital, o empresário entregou declaração de bens à Justiça em que constava um patrimônio superior a R$ 33 milhões. Na lista, havia imóveis, veículos, aplicações financeiras e ações, além de R$ 2,8 milhões em espécie. Mas, no momento do bloqueio judicial, já não havia quase nada em nome do ex-deputado.



Fonte: Helena Mader – Correio Braziliense 

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