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JUDICIÁRIO » O jogo duplo de Fachin na advocacia

A assessoria de Fachin confirmou que "o professor prestou serviço jurídico para a empresa citada", mas sem revelar valores nem o período

Indicado de Dilma ao STF recebeu honorários para defender a Copel, cujo sócio majoritário é o governo do Paraná, quando era procurador do Estado

Indicado pela presidente Dilma Rousseff (PT) para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), o jurista Luiz Edson Fachin, que será sabatinado no Senado na terça-feira, recebeu como advogado privado da Companhia Paranaense de Energia (Copel), cujo sócio majoritário é o Estado do Paraná, para representar a empresa nos tribunais e emitir pareceres jurídicos. O jogo duplo é que, na época, em 2004, Fachin era procurador do Estado e já recebia salário justamente para defender os interesses do Paraná, o princípio básico da natureza do cargo que exercia. Ele só se afastou da procuradoria do Estado em 2006, quando concorreu a uma vaga no STF. A assessoria de imprensa do advogado não informou quanto o governo paranaense repassou ao escritório de Fachin nem o período em que ele atuou na causa. Limitou-se a comunicar que “o professor prestou serviço jurídico para a empresa citada”. 

O caso em questão refere-se a uma arbitragem internacional na Câmara Arbitral de Paris. A empresa norte-americana El Paso, que era parceira do Paraná na Usina Elétrica a Gás de Araucária (UEG), havia entrado com um ação de indenização contra a Copel. Na época, o então governador, Roberto Requião (PMDB-PR), entendeu que a norte-americana estava agindo de encontro aos interesses do estado em razão de contratos considerados fraudulentos. Fachin, inclusive, esteve com Requião em Paris num dos julgamentos.

Com pareceres técnicos elaborados pelo advogado, o Paraná acabou pagando aproximadamente US$ 190 milhões para a El Paso e obteve o controle da usina em questão. A Copel informou, por meio da assessoria de imprensa, que é uma empresa de economia mista. O governo do Paraná tem a maioria das ações (31%). O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Participações (BNDESPAR) possui 24% das cotas; a Eletrobras, 0,6%; e 44% estão na chamada Custódia da Bolsa (de valores). 

Em 2006, quando o nome de Fachin entrou na lista dos três favoritos para concorrer a uma vaga no STF, o procurador do Estado do Paraná Luiz Henrique Bona Turra encaminhou representação formal ao então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, e ao ministro da Justiça na época, Márcio Thomaz Bastos. “Há, porém, fatos graves e sérios que desautorizam uma tal figuração do dr. Luiz Edson Fachin entre as alternativas presidenciais ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, daí a representação de caráter preventivo ora formulada perante vossa excelência”, escreveu. O documento, encaminhado à Presidência da República em 8 de março de 2006, ao qual o Correio teve acesso, indica de maneira clara que o procurador do Estado não poderia receber do próprio governo para fazer uma função que já é sua atribuição funcional.

Na representação, Turra afirmava que Fachin não poderia ocupar uma vaga no STF por “haver-se feito beneficiário o dr. Luiz Edson Fachin, que é também procurador do Estado do Paraná, de contrato de honorários advocatícios celebrado com a Companhia Paranaense de Energia (Copel), da qual é acionista majoritário controlador o Estado do Paraná”, afirmou. No documento, o procurador do Estado Turra faz uma comparação. “Algo como um advogado da União ou um procurador da Fazenda Nacional perceber honorários para emitir parecer relativo a uma consulta formulada pelo Banco do Brasil ou pela Caixa Econômica Federal”, concluiu.

Sabatina
O advogado Luiz Edson Fachin intensificou nesta semana seu périplo a gabinetes de senadores para garantir aprovação da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado na próxima quarta-feira. A exemplo da semana passada, a oposição pretende endurecer nos questionamentos sobre pontos considerados conflituosos no currículo do jurista.

Para se explicar, Fachin já se antecipa e, com um portfólio nas mãos, acompanhado da mulher, Rosana, desembargadora do Tribunal de Justiça do Paraná, e de assessores, tenta desconstruir a imagem de esquerdista, ligado a movimentos sociais, levantada por parlamentares na última sessão na comissão. Apresentado — na maioria das visitas — pelo senador Roberto Requião (PMDB-PR), o jurista já percorreu pelo menos 50 dos 81 gabinetes da Casa.

Nas visitas, Fachin esclarece as primeiras denúncias que vieram à tona na imprensa: a de ter advogado enquanto procurador e o fato de ter pedido voto para a presidente Dilma Rousseff em 2010 e de ser acusado de ser simpático ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e com ligações históricas com a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Ele nega relação com o MST e com a CUT.

Em alguns gabinetes de peemedebistas, o jurista passou duas vezes. Na semana passada, ganhou o apoio de parte dos que antes se demonstravam contrários graças a articulações políticas no Paraná. A liderança do PMDB vai deixar os senadores livres para sabatinar Fachin, sem orientação de bancada. Após as circuladas do advogado na Casa, uma nova tendência de apoio na conquista à vaga, em benefício dele, começa a se formar.

(Colaborou Naira Trindade)


Pareceres diferentes
Numa briga de forças e de diferentes entendimentos jurídicos, uma nova nota técnica formulada pela consultoria do Senado — desta vez encomendada pelo relator Alvaro Dias (PSDB-PR) — respalda o advogado Luiz Edson Fachin da acusação de ter cometido irregularidade ao exercer a advocacia enquanto procurador do Paraná, de 1990 a 2006. Baseado num entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), o consultor legislativo Fernando Trindade entendeu que Fachin não infringiu as regras. 

“No seu voto, que foi seguido por unanimidade pelos demais ministros, o relator Paulo Brossard ponderou: parece-me que a alteração de impedir os advogados que compõem, como juristas, o Tribunal Superior Eleitoral e o Tribunal Regional Eleitoral, de advogar, ofende diretamente artigos da Constituição gerando proibição oblíqua, mas real e efetiva”, consta do documento. A nota também cita os mesmos pontos já defendidos pela Ordem dos Advogados do Brasil. Após a publicação da nota, o Correio não conseguiu contato com o relator Alvaro Dias para comentar o novo relatório. 

Ontem, após a polêmica em torno dos pareceres jurídicos da Casa, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), negou que a nota técnica — a primeira, distribuída pelo senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), alegando ser irregularidade a atuação como advogado ao mesmo tempo que procurador — expresse a opinião da instituição. Por meio de nota, Renan quis esclarecer “que se trata de opinião pessoal do signatário e não pode ser confundida com a posição institucional do Senado”, afirmou. Para Renan, o Senado se “manifesta somente pela vontade da maioria de seus membros”. Assinado pelo consultor legislativo João Trindade Cavalcante Filho, o documento encomendado por Ferraço reforçava a tese de que Fachin estava impedido de exercer a advocacia privada enquanto procurador do Paraná.



Fonte: João Valadares –  Naira Trindade - Correio Braziliense 

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