Lilian durante discurso em apoio ao marido, em Caracas, no ano passado
Em visita
a Brasília, onde pretendia ser recebida pela presidente Dilma Rousseff, Lilian
Tintori falou com exclusividade ao Correio
Em 18 de fevereiro de 2014, a professora Lilian Tintori, 36
anos, entregou a bandeira da Venezuela ao marido, deu-lhe um beijo e ficou ao
lado dele até que fosse levado pela Guarda Nacional Bolivariana. Uma multidão
acompanhou a prisão de Leopoldo López, um dos principais líderes da oposição na
Venezuela. Desde então, o político está detido na penitenciária militar de Ramo
Verde, a cerca de 30km de Caracas. Em visita a Brasília, onde pretendia ser
recebida pela presidente Dilma Rousseff, Lilian Tintori falou com exclusividade
ao Correio Braziliense.
De que modo a
senhora vê a decisão da presidente Dilma Rousseff de não recebê-la?
Me dá
muita pena que não possamos vê-la nessa ocasião. A presidente deu uma
entrevista na qual deixou claro sua condenação à prisão e à existência de
presos político. Independentemente que nos receba ou não, o que importa é que
tenha uma clara influência sobre Nicolás Maduro (presidente da Venezuela) e dos
líderes da região, a fim de incitá-lo a cessar a repressão e a perseguição na
Venezuela, a libertar os presos políticos e a interceder para que nas Venezuela
haja eleições justas e imparciais, com observação internacional. Também que se
respeitem os princípios internacionais dos direitos humanos que, felizmente,
vocês têm hoje no Brasil.
Que reações a
senhora espera do Brasil com sua visita? Como o governo Dilma Rousseff pode
ajudá-la?
Nós
esperamos que nossa denúncia seja levada em conta com a seriedade que o caso
merece. Muitas vezes, o cerco de censura não permite que o que ocorre na
Venezuela chegue além da fronteira. Com nossa visita, temos pretendido colocar
sobre a mesa, em primeira mão, com Mitzy Capriles de Ledezma (esposa do
prefeito Antonio Ledezma) e com Rosa Orozco (mãe da jovem estudante assassinada
nos protestos) o tema, com a gravidade que merece. O fato de seguirmos nesta
luta e de pedirmos a atenção da região é um claro sinal de que não bastam os
venezuelanos sozinhos, em um clima onde não existe separação de poderes e onde
se reprime aquele que pensa distinto. Esse pedido de ajuda ao Brasil e a suas
autoridades é para que nos apoiem para que se cesse a repressão e a perseguição
contra quem pensa diferente, e se liberte os presos políticos, líderes
essenciais da oposição, que estarão na mesa de qualquer processo de diálogo e
entendimento.
Qual seria a
mensagem que a senhora deixaria ao povo brasileiro sobre a situação na
Venezuela?
Ao povo
do Brasil, antes de tudo nosso agradecimento por sua hospitalidade. Nós
queremos reiterar a gravidade da situação do que ocorre na Venezuela. Sozinhos
não podemos... Nenhuma crise dessa magnitude, política, econômica e social,
pode ser resolvida sem a ajuda dos países amigos que entendem a profundidade do
que está em jogo. Nós compartilhamos quase 3 mil quilômetros de fronteira, uma
fronteira muito porosa, onde o que acontece de um lado se sente do outro.
Nossos povos têm mantido laços de amizade contínua. Na Venezuela, há 25 mil
mortes por ano. Hoje, temos 89 presos políticos, muitos deles por exercerem seu
direito constitucional de protestar. Entre eles, meu marido. Eu denuncio
claramente um governo corrupto, ineficiente, antidemocrático e repressor. Apoio
a busca por uma saída constitucional e pacífica para esse desastre. Assim como
há laços de amizade, também devemos cuidar e manter o respeito pelos direitos
humanos, pilar fundamental da democracia. Quando esse componente vital da
democracia é violado, sobram muito poucos mecanismos nacionais para a luta
institucional, pois justamente as instituições entram em colapso. No entanto,
nosso espírito e apego à institucionalidade está intacto e, por isso,
recorremos ao povo brasileiro para pedir-lhe que nos ajude a encontrar uma
solução para esta crise. Buscamos a ajuda internacional no Brasil, porque em
casa temos muito pouca esperança de que nossas queixas de velar pelos nossos
direitos seja atendida. Cidadão a cidadão... É muito o que podemos conquistar
juntos. Mais ainda como povo irmanados por aspirações de liberdade e de justiça.
Por: Rodrigo Craveiro – Correio Braziliense

