As barragens do Descoberto e do Torto/Santa Maria, responsáveis pelo fornecimento de água na capital, mostram-se abaixo do nível esperado para janeiro e preocupam especialistas. O maior problema será durante o período da seca
Por: Luiz Calcagno - Correio Braziliense
Publicação: 21/01/2015
| Marcação do nível da Barragem do Torto/Santa Maria mostra o drama no reservatório: perigo |
Como na maioria das unidades da Federação, o Distrito Federal está com os reservatórios de água abaixo do esperado para o início do ano. As barragens do Descoberto e do Torto/Santa Maria estão, respectivamente, 2,4m e 1m aquém do normal para janeiro. Para piorar, meteorologistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) alertam: as chuvas previstas para os próximos dias não serão suficientes para suprir a baixa. Embora os técnicos da Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) considerem que, com os reservatórios acima do nível mínimo, não exista motivo para preocupação, especialistas avaliam que a estiagem fora de época trará problemas de abastecimento. Ontem, foi o dia mais quente do ano no DF: 31,9ºC.
O Correio visitou os reservatórios que abastecem a capital federal. Os funcionários de cada sistema se mostraram preocupados com o nível para o período. A Barragem do Descoberto está rodeada por uma margem de cerca de 60m, na qual, antes, havia água. A terra vermelha e seca expõe troncos e pedras nada familiares para quem vive nas proximidades. Valdeir Jonas da Silva, 35 anos, mora no Incra 9, em Ceilândia, às margens do espelho d’água, e nunca viu o espaço tão recuado. “Cada dia que passa sem chuva, parece piorar. Para quem conhece a região, dá tristeza ver isso acontecer. A nossa maior preocupação é com o abastecimento do DF”, conta.
| Barragem do Descoberto: 2,4m abaixo do previsto para o mês |
A assessoria de Comunicação da Caesb informou que existem projetos para aumentar a captação para o DF. Na prática, porém, os sistemas de Corumbá, do Lago Paranoá e a ampliação do Bananal não saíram do papel. Pesquisador da Embrapa Cerrados e presidente do Comitê de Bacias do Lago Paranoá, Jorge Werneck alerta que existe o risco de o volume de chuvas ser menor até a chegada da seca, e os recursos hídricos locais entrarem na estiagem com as barragens em um nível abaixo do necessário para atravessar o período. “Há quatro décadas, chovia todos os dias em dezembro e janeiro”, recorda.
Werneck alerta que, há 40 anos, a média de precipitações em 12 meses era de 1,5 mil milímetros por metro cúbico, e caiu para 1,2 mil. A diminuição, segundo o especialista, muda o regime hidrológico da região. “Tudo o que vem acontecendo está interligado e nos remete à necessidade de acompanhar de perto os níveis de chuvas e dos nossos rios. É preciso uma boa gestão agora para evitarmos o que está acontecendo em São Paulo. Entraremos no período de seca e como ficará a situação? Ficaremos cerca de cinco meses sem chuva. Não sabemos quanto de água teremos pela frente agora e gostaríamos que os nossos reservatórios estivessem dentro do esperado”, afirma.
| Valdeir, morador do Incra 9: Dá tristeza ver isso acontecer |
Um dos problemas apontados pelo pesquisador é a relação entre a água captada pela companhia de saneamento e o consumo da população. O valor é cada vez mais próximo, o que exige um acompanhamento minucioso, além do uso racional pelos consumidores. “É importante que as pessoas usem a água com parcimônia. A Caesb sofre perdas no sistema, como outras empresas do ramo, e também é preciso minimizar esse desperdício para enfrentarmos as secas sem maiores prejuízos. Como a capacidade de captação da empresa é muito próxima do tempo de consumo, eles trabalham no limite. No entanto, têm buscado alternativas com novos projetos de captação”, pondera Werneck.
Produção
Os termômetros do Inmet registraram ontem a maior temperatura de 2015 no DF. Os medidores alcançaram 31,9ºC. A umidade chegou a 28% no meio da tarde. Para amanhã, o instituto prevê chuva fraca em áreas isoladas do quadrilátero. Uma massa de ar quente do Oceano Pacífico impede a formação de precipitações na região. “Os ventos trazem ar quente, e os ventos frios são bloqueados. A incidência de raios solares contribui para o aumento das temperaturas”, detalha a meteorologista Maria das Dores de Azevedo.
O engenheiro agrônomo da Cooperativa Agropecuária da Região do DF (Coopa-DF), Cláudio Malinski, explica que o problema nos reservatórios locais preocupa os produtores rurais. Os mananciais que abastecem as barragens também irrigam as plantações, e a estiagem prejudica todo o sistema. “A água para suprir a irrigação momentaneamente, nós temos. Mas, na época da seca, se continuar com esse ritmo (falta de chuva), teremos dificuldade. Com essa seca de janeiro, perdemos 20% da produção de soja. O baixo nível das represas pode trazer desabastecimento para todo o Distrito Federal”, lamentou.
Radiografia
Sistema Descoberto
Atende 60% do DF
Nível máximo: 1.030m
Nível mínimo: 1.020m (abaixo disso, é considerado problemático)
Nível atual: 1.028m
Sistema Santa Maria/Torto
Atende 40% do DF
Nível máximo: 1.072m
Nível mínimo: 1.060m (abaixo disso, é considerado problemático)
Nível atual: 1.071m
Atende 60% do DF
Nível máximo: 1.030m
Nível mínimo: 1.020m (abaixo disso, é considerado problemático)
Nível atual: 1.028m
Sistema Santa Maria/Torto
Atende 40% do DF
Nível máximo: 1.072m
Nível mínimo: 1.060m (abaixo disso, é considerado problemático)
Nível atual: 1.071m
