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Morre, em Brasília, o fundador da Rede Sarah, Aloysio Campos da Paz Júnior


O médico morreu de insuficiência respiratório, como informado pela Rede Sarah. O sepultamento será na segunda-feira

Morreu, neste domingo (25/1) às 14h30 no Sarah Centro em Brasília, Aloysio Campos da Paz Júnior, o renomado ortopedista que fundou a Rede Sarah de Hospitais, especializada em medicina ortopédica. O médico, de 80 anos, atualmente era cirurgião-chefe da instituição. Ele morreu de insuficiência respiratória, como divulgado fim da tarde pela instituição por meio de nota. O sepultamento será na segunda-feira (26/1) em horário a ser definido pela família. 

Nascido em 1934 no Rio de Janeiro em uma família de médicos consagrados, Campos da Paz veio para Brasília com o desejo de criar a própria história na medicina. Em 1968, foi convidado para dirigir a Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, que tem clínicas em Brasília, Salvador, São Luís, Belo Horizonte, Fortaleza, Rio de Janeiro, Macapá e Bélem. Campos da Paz tinha acabado de voltar de seus estudos em Oxford quando assumiu o projeto.

Dilma Rousseff lamentou a perda do médico pelas redes sociais. "Campos da Paz dizia que sua filosofia era trabalhar para que cada paciente fosse tratado com base no seu potencial e não nas suas dificuldade. Foi com esta fé na potencialidade de cada paciente que a Rede Sarah ajudou a melhorar a qualidade de vida de milhares de brasileiros", completou.

"Brasília é a minha terra"

Aloysio Campos da Paz deixou no Rio a tradição de quatro gerações de médicos para construir um legado próprio no Cerrado. Na chegada, Foi chamado deotário.

Depois,Fundou o Sarah, modelo de medicina ortopédica, Num dia da primeira quinzena de maio de 1960, um ortopedista recém-formado saiu de casa, na 106 Sul, para se apresentar no primeiro emprego. Estava vestido de branco até os pés — “roupa que os médicos, os babalorixás e os atendentes de farmácia usavam na época”. Afundando em poeira, caminhou até uma estrada por onde transitavam caminhões cheios de operários. Sem demora, um deles parou e perguntou aonde o candango vestido de branco avermelhado pretendia ir. “Vou ao Hospital Distrital de Brasília”. Começou então uma discussão entre os peões de obra até que se chegou a um consenso. O caroneiro queria ir para a obra da Pederneiras. Naquele tempo, os endereços eram identificados pelo nome da construtora do prédio.

No cruzamento dos dois eixos, onde a Rodoviária estava sendo construída, o caminhão parou. “É aqui”. O jovem médico Aloysio Campos da Paz seguiu por uma picada rumo ao hospital. “De repente, cheguei num barracão de madeira, pintado de azul, escrito assim ‘Primeiro Hospital Distrital de Brasília’”. Na entrada, havia um homem numa cadeira de balanço. Duvidando da veracidade do que via, Campos da Paz perguntou: “Aqui é o Hospital Distrital?” O candango sentado respondeu: “Bom, chegou mais um otário. O que é que você faz?”. O ortopedista foi orientado a seguir em frente por um corredor até um lugar que supôs ser o seu novo local de trabalho. “Havia uma pilha de atadura de gesso com um candango acocorado em cima”.

Àquela altura, o médico já tinha percebido onde havia aterrissado e qual era a lógica que movia a construção da capital e, por extensão, o serviço médico. Logo, o candango acocorado, ex-tratorista, de nome Dalvino, foi transformado em técnico de gesso. “Foi o primeiro que eu treinei e ele depois treinou gerações”.

Tudo o que estava acontecendo nos primeiros dias de chegada a Brasília era um nada diante do que viria.

O primeiro ortopedista da nova capital que havia se preparado para atuar em ortopedia infantil tinha caído no que parecia ser um hospital de campanha de um campo de batalha. “Foi uma loucura. Os caminhões chegavam e literalmente despejavam no pátio do barracão os candangos feridos em acidente de trabalho”. O que salvou o recém-formado foi um livro, Fraturas y luxacones , que até hoje ele guarda na estante de sua sala no Sarah da 301 Sul. “É todo cheio de diagramas, para tal coisa, faça tal coisa, e eu andava com aquele negócio debaixo do braço”.

Por que a nova capital?
O que trouxe aquele casal promissor para Brasília? Ele é filho de uma família de médicos consagrados. Ela era bibliotecária do Senado, mas tinha a opção de continuar no Rio. O avô do ortopedista, Manoel Venâncio Campos da Paz, exerceu a medicina tão intensamente quanto praticou a política. Foi um dos fundadores da Aliança Libertadora Nacional (ALN), movimento comunista criado em 1935 para fazer frente ao avanço do fascismo no Brasil. O neto Campos da Paz conta que o avô está citado em Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos.

O que trouxe o casal para Brasília foi o desejo de fundar o próprio futuro. “Eu era a quinta geração de médicos, praticamente todos eles professores de medicina. Minha mulher e eu vimos em Brasília a oportunidade de a gente se realizar não pelo nome. No Rio, meu nome era nome de praça, de rua. Na Faculdade de Medicina, eu ia fazer prova e o sujeito, em vez de me perguntar sobre a matéria em questão, começava a perguntar como vai o fulano, o beltrano e me mandava embora. Se eu ficasse lá, ia ser mais um por causa do nome, não por causa de uma realização pessoal.”

Não bastava, porém, começar do nada numa cidade nascente. Aloysio Campos da Paz logo percebeu que aquele volume insano de trabalho “era um aventureirismo incompatível com o futuro”. Se ele quisesse construir uma carreira médica como a que acabou construindo, teria de aprender com os grandes. Foi fazer pós-graduação na região que havia acumulado grande experiência em ortopedia por conta da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha. “Todos os grandes cirurgiões tinham sido cirurgiões de guerra e foi lá que surgiram coisas como prótese total do quadril, cirurgia da mão, e que depois vieram a ser vanguarda.”

Se estava no topo do mundo da pesquisa de sua área de conhecimento, por que voltar? E por que voltar para Brasília? “Porque era minha terra, já era minha terra. Fui pra voltar. A decisão já estava tomada. Ficou bem claro pra mim que toda aquela aventura do início seria incompatível com a responsabilidade que eu teria no futuro”. Foi pensando em Brasília que Campos da Paz percorreu 16 cidades da Grã-Bretanha em busca do conhecimento. “Meu chefe sabia que eu ia voltar, tanto que ele investiu muito em mim pra que eu pudesse construir a base. O volume de informações que recebi, seja sob o ponto de vista técnico, seja de gestão, seja sob o ponto de vista filosófico, foi enorme para um garoto de 26 anos.”

Solidão, sempre
O golpe de 31 de março de 1964 já estava se aproximando quando Campos da Paz voltou a Brasília. Mas nem a interrupção brutal da utopia brasileira atrapalhou o projeto de futuro de Campos da Paz. Porém, a cidade tinha se transformado no quartel-general do regime de exceção. Circunstância que impunha um isolamento intelectual a quem não se alinhava com o pensamento de direita. O ortopedista se define ideologicamente como sendo de esquerda, “mas não essa esquerda burra”. Indagado se não se sentiu sozinho em determinado momento, ele retruca imediatamente: “Em determinado momento, não. Sempre. O país não é propriamente inteligente.”

Da solidão do Planalto Central, Campos da Paz cultivou ao longo de meio século interlocutores de primeira grandeza. Cita alguns: Leandro Konder, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Lucio Costa. “Tive oportunidade de conhecer e conviver com figuras notáveis.” Mais que isso, Brasília ensinou o carioca a mudar a trajetória do olhar. “Meu horizonte era o Oceano Atlântico, eu vivia de costas para o país. Passei a conhecer o Brasil. O significado de Brasília foi esse: o Brasil dava as costas para o Brasil. A relação era com o oceano e com o que estava do outro lado do oceano. Não era com o país. Brasília obrigou o Brasil a se interiorizar, foi esse o grande significado dela, a conquista do país.”

Cinquenta anos depois, o surgimento “de uma classe média sem valores” permitiu que Brasília perdesse o fio da utopia. “O que é que o empresário brasileiro desses que emergiram aí mais quer? Quer abrir um escritório em Miami”. Aloysio Campos da Paz diz que seus interlocutores sabem qual foi o significado de Brasília para o Brasil. “Nenhum deles é paulista”, brinca. “Paulista tem grande dificuldade de entender qualquer coisa que não seja a Avenida Paulista.”


Por: Conceição Freitas - Correio Braziliense 

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