O governo Dilma
Rousseff aboliu do dicionário da
República os termos "apagão" e "racionamento", mas vamos
aos fatos: com o consumo de energia batendo recorde atrás de recorde e os
níveis dos reservatórios em baixa, no fundo do poço, a conta não fecha. Algo
precisa ser feito. Ou, ao menos, dito.
Atarantado, o governo não diz coisa com
coisa. Quando dez Estados e o Distrito Federal ficaram às escuras, foi reunião
daqui, entrevista dali, e nada de uma explicação confiável e de anúncio de
providências sérias.
Político, o ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga,
botou vagamente a culpa numa tal "falha técnica ou humana" e saiu-se
com essa, que já entra para os anais do reinício do mandato Dilma: Deus é
brasileiro, vai dar um jeito de mandar frio e chuvas e salvar a Pátria.
Técnico, o diretor geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Hermes Chip,
foi mais realista: com esse calorão, dispara o uso de arcondicionado,
ventilador, chuveiro e máquina de lavar e houve um pico de consumo que o
sistema não suportaria. E, já que não suportaria, teve de ser desligado
preventivamente.
O político nega e o técnico confirma que a geração não está
dando conta do recado e o resultado é que houve um apagão para evitar um risco
de apagão (?!). O que nenhum dos dois disse, mas ocorria naquele mesmo dia, é
que o gigante Brasil foi bater na porta da encalacrada Argentina, de pires na
mão, para pedir um pouco de energia emprestada.
E se o ONS não tivesse
desligado preventivamente o sistema em quase metade das unidades da Federação?
E se não tivesse pedido socorro à Argentina? Dá até para saber o que poderia
acontecer, mas não o nome que isso teria no dicionário da presidente. De apagão
e de racionamento não se pode falar, nem pensar alto...
Segundo dados do
próprio ONS, 85% das hidrelétricas estão com níveis de água inferiores aos que
registravam durante o apagão do governo Fernando Henrique, em junho de 2001. No
Sudeste e no Centro Oeste, responsáveis por cerca de 70% da capacidade de
geração de energia do País, os níveis dos reservatórios bateram em 17,63%. No
apagão, tinham 28,55%. E todo dia tem novo recorde de consumo.
As termelétricas
estão trabalhando a todo vapor, apesar de serem muito mais caras que as
hidrelétricas e só servirem como Plano B, como complementação. O Plano B está
virando Plano A.
Feia a coisa, mas o mais incrível é como o setor público é
capaz de bater cabeça e de cometer erros. Outro dado rapidamente, para não
cansar, é o desperdício de 37% da água tratada no Brasil. Só em São Paulo, que
vive uma alarmante falta de água, o desperdício em 2013 foi de 34,3%. Os
cidadãos ficam sem água aqui, e o setor público joga fora água tratada ali.
Por
quê? Por falta de planejamento, infraestrutura, investimento, manutenção,
treinamento de pessoal. Em outras palavras, por descaso mesmo, num país que desperta
inveja no mundo inteiro por ser uma potência hídrica. E não adianta rezar para
Deus. Nem para Cristina Kirchner.
Nos Andes. Aliás, por onde anda a presidente
da República durante essa confusão toda, de crise de energia, de aumento de
juros, de crédito mais caro para as pessoas físicas e de insubordinação no PT?
Em Davos, atraindo investidores? Não. Dilma está em La Paz para a posse do
presidente Evo Morales, que não tem a menor novidade: a Bolívia fica aqui do
lado e essa posse de Morales nem foi a primeira nem será a última.
Fonte: Estadão

