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Crise hídrica e desperdício

Roberto Campos costumava dizer que a fartura era a desgraça do Brasil. A riqueza se ofereceria generosa. Bastava extraí-la. Assim foi com o pau-brasil, o ouro, as matas, a água, as pedras preciosas. A enumeração chegava à banana. Graças à fruta, capaz de se multiplicar espontaneamente, ninguém passava fome. Mesmo o clima, sem temperaturas extremas, estimulava a boa vida. Em suma: a abundância não seria fruto do esforço, mas da prodigalidade divina. 


A lembrança vem à tona a propósito da crise hídrica que afeta a quinta parte dos municípios do país. Segundo o Ministério da Integração Nacional, 937 cidades estão em estado de emergência por causa da estiagem. No Sudeste, região com a maior densidade demográfica nacional, o nível dos reservatórios está no limite. São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro amargam a escassez de água. 

Ontem, o Paraibuna, coração do sistema que abastece o estado fluminense, chegou ao ponto crítico. O Rio de Janeiro passou a utilizar o volume morto. São Paulo praticamente esgotou o de Cantareira. No Centro-Oeste, a situação não é mais confortável, embora as represas não estejam nos níveis alarmantes do Sudeste. Acendeu-se a luz amarela — com séria ameaça de chegar à vermelha. 

A apreensão se explica. Choveu pouco em janeiro, bem menos que o esperado. Quando chegar a seca, que a cada ano fica mais longa, o quadro se tornará mais dramático. As barragens do Descoberto e do Torto-Santa Maria estão abaixo do normal para o período, daí por que a Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) tem cortado o abastecimento dos brasilienses. 

Apesar do quadro desesperador, um número chama a atenção. Segundo relatório do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), órgão ligado ao Ministério das Cidades, o Brasil desperdiçou, em 2013, 37% da água tratada no país (percentual igual ao registrado em 2012). A perda se dá entre o tratamento e a distribuição do insumo. As causas do esbanjamento são várias. Entre elas, vazamentos em diferentes estágios — adutoras, redes, ramais, conexões e reservatórios das prestadoras de serviço. 

A crise ameaça não só o consumo doméstico. Joga nuvens escuras também na produção. Segundo a Fiesp, 75% das grandes empresas correm risco de perder faturamento. Medidas emergenciais se impõem nas duas pontas. De um lado, há que reduzir a perda da água que não chega às torneiras. De outro, o consumidor precisa racionar. São Pedro já provou que está surdo aos apelos dos brasileiros. A abundância de que falava Roberto Campos chegou ao fim. É hora de mudar hábitos.



Fonte: Visão do Correio Braziliense 

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