Expoente em réplicas de carros antigos no país, funcionário público aposentado constrói modelos famosos a partir do zero.
Cefas Oliveira e os dois Shelby Cobra assinados por ele (Foto: Michael Melo)
Atrás dos muros do Autódromo Internacional Nelson Piquet, em Brasília, há uma fábrica de sonhos que não se restringe às curvas e retas da pista. Em um dos galpões do circuito, logo na entrada, funciona uma oficina dirigida pelo servidor público aposentado Cefas Oliveira, de 58 anos. Lá, ele e uma equipe de seis profissionais constroem réplicas de carros antigos sob encomenda, atendendo a pedidos de gente disposta a gastar de 100 000 a 300 000 reais em mimos motorizados. A especialidade de Oliveira é fabricar clones de Shelby Cobra, uma relíquia esportiva inglesa da década de 60. Mas ele também aceita encomendas de outros modelos clássicos. “A maioria deles começa a ganhar forma da estaca zero”, diz o mecânico. Em vinte anos, ele já entregou sessenta veículos de diversas marcas(veja o quadro no final da matéria).
Tal paixão por carros surgiu bem cedo na vida de Oliveira, que nasceu no Rio, chegou a Brasília com 3 anos de idade e, desde pequeno, cresceu rodeado pelos automóveis importados do pai — entre eles, um Cadillac e o francês Simca Chambord. “Nós morávamos na 406 Norte na década de 60. Naquele tempo, havia poucos carros na quadra. Os modelos do meu pai eram sempre os mais espalhafatosos”, recorda. Com 13 anos, ele assumiu um volante pela primeira vez. Costumava dirigir pelo Eixinho Norte, numa época de raro trânsito de veículos por ali. Aos 17, enturmado com os então playboys Fernando Collor de Mello, Paulo Octavio e Luiz Estevão, ganhou popularidade como o rei do racha em Brasília. Cabia a ele envenenar os carros dos filhos da elite local, uma especialidade que lhe rendeu o apelido de Kid Dinamite. Com 19, Oliveira tornou-se piloto profissional e chegou a participar de corridas nas categorias Stock Car e Espron. Mas esse caminho não vingou. Por exigência do pai, fez concurso público para a Câmara dos Deputados em 1976, sendo lotado na oficina da Casa. O mecânico autodidata ficou responsável pela manutenção dos Aero Willys e dos Dodge Dart de luxo usados pelos parlamentares. Lá, a cultura da mordomia prejudicava a frota de veículos adquiridos com dinheiro público e dava trabalho extra a Oliveira. Enquanto os políticos viajavam para seu estado dentro de um avião, os carros oficiais geralmente seguiam por terra para servi-los nas visitas às bases eleitorais. “Eles voltavam com a suspensão toda quebrada porque as estradas eram muito precárias”, conta.
Nelson Piquet, seu amigo e maior cliente (Foto: Arquivo pessoal)
Simultaneamente à experiência na oficina da Câmara, o mecânico transformou um hobby em negócio promissor e, a partir de 2004, investiu na elaboração de réplicas de carros. Tais cópias geralmente partem de modelos originais que viraram artigos raros. Os Shelby Cobra autênticos, por exemplo, não passam de sessenta em todo o mundo e ostentam preços de sete dígitos. Como os veículos montados por Oliveira já têm patente de domínio público, ele não pode ser acusado de falsificação. “Quando termino um modelo, é como se tivesse colocado mais um filho no mundo”, descreve. Atualmente, ele trabalha na produção de outros dois “rebentos”.
O ofício de doze horas diárias acabou aproximando o mecânico do tricampeão de Fórmula 1 Nelson Piquet, que já adquiriu dois carros assinados por ele. Convidado pelo amigo, Oliveira o acompanhou em uma viagem de moto entre Brasília e São Paulo. O ano era 2007 e eles pretendiam assistir, juntos, a uma corrida de Fórmula Truck. A jornada, porém, acabou numa curva da BR-060, perto do município goiano de Jerivá. Oliveira perdeu o controle do seu veículo de duas rodas a 240 quilômetros por hora e se chocou contra uma árvore. Ao fim do período de quase um ano no hospital, ele não recuperou o movimento do braço direito. Fortes dores, que o perseguem até hoje, dificultam cada vez mais seu trabalho na oficina e, frequentemente, derrubam seu ânimo. “Acho que já está chegando a hora de me aposentar”, lamenta. Como nenhum dos seus três filhos mostrou interesse e talento para essa arte, ele acredita que fechará as portas em breve. Os fãs de carros, é claro, torcem contra.
(Fotos: Arquivo Pessoal) - Revista Veja Brasília - Por Ullisses Campbell

