Centro cultural da 508 Sul padece sob o abandono público. Fechado, sem previsão de reabertura, o local pede socorro. A entrada principal: portas fechadas.
Segunda-feira, 19 de maio de 2014, 16h30. Espaço Cultural Renato Russo fechado. Um vigia informa que apenas duas pessoas cuidam do local. Revezam-se na função. Nenhuma delas estava presente. A reportagem do Correio é impedida de adentrar o espaço. No dia seguinte, a mesma história. Fechado. O enredo se repete no decorrer dos dias subsequentes.
Desde janeiro deste ano, as portas do mais importante centro cultural de Brasília, na 508 Sul, não se abrem ao público. A movimentação interna é, praticamente, nula. Oficialmente, três funcionários ocupam o espaço. Além dos dois gerentes mencionados pelo segurança, uma bibliotecária. Ninguém mais. Na década de 1990, o número era superior a 60.
Na semana passada, o Correio teve acesso à área interna. Rachaduras, fiações expostas, teias, portas danificadas, pichações. Não se admite publicamente, mas, pelos bastidores, há quem diga que um dos motivos para o encerramento das atividades foram problemas relacionados à rede elétrica do prédio, incapaz de suportar a demanda e, consequentemente, um risco aos frequentadores.
As imediações do espaço se tornaram residência para moradores de rua.
O gestor público do espaço, Marconi Valaderes, atendeu a reportagem, mas preferiu que a Secretaria de Cultura prestasse os esclarecimentos devidos, principalmente no que tange à reabertura. Ele aproveitou, no entanto, para explicar a impossibilidade de o local se manter aberto: “Foram emitidas 12 notificações da Agefis (Agência de Fiscalização do Distrito Federal) quanto à acessibilidade do local. Por uma questão de segurança e para evitar o acúmulo das multas previstas, a gestão preferiu o fechamento”.
Além da Agefis, o Corpo de Bombeiros pediu a interdição do local. Motivo: o Espaço Cultural Renato Russo nunca obteve alvará de funcionamento, sempre atendendo sob condições precárias.
Por meio da assessoria de comunicação, a secretaria informou que o projeto de revitalização deverá ser entregue este mês. Somente então, será realizada a licitação para a escolha da empresa responsável por realizar as futuras obras, previstas para o segundo semestre e estimadas em R$12 milhões. Os mais otimistas esperam a conclusão em 2017. Destarte, a cidade perde um dos seus mais efervescentes centros culturais. Celeiro artístico desde a inauguração, em 1974.
Ajuda comunitária. Artistas se reúnem para tentar mantê-lo vivo.
“Uma afronta”
Delei Amorim, artista plástico, conhece como poucos o outrora chamado Espaço Cultural da 508 Sul, casa dos antológicos palcos Galpão e Galpãozinho e do extinto Centro de Criatividade. Além de ter exposto no local diversas vezes, desde a fundação, ensinou o ofício por lá ao longo de 12 anos. Hoje, aposentado, Delei lamenta a condição atual: “É uma afronta. Um desserviço inacreditável”.
A aposentadoria não o esmorece. O artista mineiro, que desembarcou por aqui em 1960 e se tornou conhecido pela arte urbana, murais e pinturas que adornam algumas paredes a céu aberto, segue intervindo nos espaços públicos da capital. “Não abandono a 508 Sul. Todo sábado, eu e um grupo de pintores nos encontramos por ali.”
A reunião acontece propositadamente do lado de fora, já que a tela que eles buscam jaz sob o sol. “Pintamos as paredes do Renato Russo. O grafite está se deteriorando, apagando-se. Em qualquer trecho em branco, jogamos uma tinta. Tudo do nosso bolso. Sem qualquer incentivo público. Pela arte.” Apesar da negligência do governo, há quem ainda se importe.
Artigo:
João Antônio é ator, diretor, dramaturgo e professor emérito da UnB, um dos fundadores do Departamento de Artes Cênicas da universidade.
Nossa casa
1974 — O embaixador Wladimir Murtinho autorizou e o galpão vazio se transformou no Teatro Galpão. Em 1977, mais galpões foram ocupados e o Centro de Criatividade virou a nossa casa, encontro das artes, ponto de reunião de artistas.
Ali, encontramo-nos com o público. Fizemos temporadas longas, sucessos com trabalhos até hoje lembrados. Ali, fomos surpreendidos por obras que impactaram e transformaram nosso fazer artístico. Éramos donos daquele espaço democrático. Todo mundo que passou por ali tem uma bela história para contar, como protagonista ou espectador. Formamos público. Formamo-nos como artistas. Nós, brasilienses, estávamos em casa!
Nos anos 1990, em plena atividade e depois de tanto tempo, a burocracia achou que corríamos perigo! Madeira, fios soltos, teto de zinco. Vamos reformar! Fecha e espera. A reforma demorou tanto! O ânimo esfriou. Nunca mais voltou a ser o mesmo. Ainda assim, a sensação de pertencimento continuava. Com muito esforço, com equipamentos próprios, com muita garra, enfrentamos a falta de políticas culturais permanentes, e o rebatizado Espaço Cultural Renato Russo ainda era nosso.
Agora, fechado de novo! Tristeza. Apreensão.
Já perdemos o Cine Cultura, a Concha Acústica, os teatros do Centro de Convenções, o Teatro Helena Barcelos da UnB e o Teatro Nacional, fechado para reforma (perigo!), além de tantos outros espaços culturais abandonados.
SOCORRO!
Por: Diego Ponce de Leon - Correio Braziliense - 03/06/2014
Segunda-feira, 19 de maio de 2014, 16h30. Espaço Cultural Renato Russo fechado. Um vigia informa que apenas duas pessoas cuidam do local. Revezam-se na função. Nenhuma delas estava presente. A reportagem do Correio é impedida de adentrar o espaço. No dia seguinte, a mesma história. Fechado. O enredo se repete no decorrer dos dias subsequentes.
Desde janeiro deste ano, as portas do mais importante centro cultural de Brasília, na 508 Sul, não se abrem ao público. A movimentação interna é, praticamente, nula. Oficialmente, três funcionários ocupam o espaço. Além dos dois gerentes mencionados pelo segurança, uma bibliotecária. Ninguém mais. Na década de 1990, o número era superior a 60.
Na semana passada, o Correio teve acesso à área interna. Rachaduras, fiações expostas, teias, portas danificadas, pichações. Não se admite publicamente, mas, pelos bastidores, há quem diga que um dos motivos para o encerramento das atividades foram problemas relacionados à rede elétrica do prédio, incapaz de suportar a demanda e, consequentemente, um risco aos frequentadores.
As imediações do espaço se tornaram residência para moradores de rua.
O gestor público do espaço, Marconi Valaderes, atendeu a reportagem, mas preferiu que a Secretaria de Cultura prestasse os esclarecimentos devidos, principalmente no que tange à reabertura. Ele aproveitou, no entanto, para explicar a impossibilidade de o local se manter aberto: “Foram emitidas 12 notificações da Agefis (Agência de Fiscalização do Distrito Federal) quanto à acessibilidade do local. Por uma questão de segurança e para evitar o acúmulo das multas previstas, a gestão preferiu o fechamento”.
Além da Agefis, o Corpo de Bombeiros pediu a interdição do local. Motivo: o Espaço Cultural Renato Russo nunca obteve alvará de funcionamento, sempre atendendo sob condições precárias.
Por meio da assessoria de comunicação, a secretaria informou que o projeto de revitalização deverá ser entregue este mês. Somente então, será realizada a licitação para a escolha da empresa responsável por realizar as futuras obras, previstas para o segundo semestre e estimadas em R$12 milhões. Os mais otimistas esperam a conclusão em 2017. Destarte, a cidade perde um dos seus mais efervescentes centros culturais. Celeiro artístico desde a inauguração, em 1974.
Ajuda comunitária. Artistas se reúnem para tentar mantê-lo vivo.
“Uma afronta”
Delei Amorim, artista plástico, conhece como poucos o outrora chamado Espaço Cultural da 508 Sul, casa dos antológicos palcos Galpão e Galpãozinho e do extinto Centro de Criatividade. Além de ter exposto no local diversas vezes, desde a fundação, ensinou o ofício por lá ao longo de 12 anos. Hoje, aposentado, Delei lamenta a condição atual: “É uma afronta. Um desserviço inacreditável”.
A aposentadoria não o esmorece. O artista mineiro, que desembarcou por aqui em 1960 e se tornou conhecido pela arte urbana, murais e pinturas que adornam algumas paredes a céu aberto, segue intervindo nos espaços públicos da capital. “Não abandono a 508 Sul. Todo sábado, eu e um grupo de pintores nos encontramos por ali.”
A reunião acontece propositadamente do lado de fora, já que a tela que eles buscam jaz sob o sol. “Pintamos as paredes do Renato Russo. O grafite está se deteriorando, apagando-se. Em qualquer trecho em branco, jogamos uma tinta. Tudo do nosso bolso. Sem qualquer incentivo público. Pela arte.” Apesar da negligência do governo, há quem ainda se importe.
Artigo:
João Antônio é ator, diretor, dramaturgo e professor emérito da UnB, um dos fundadores do Departamento de Artes Cênicas da universidade.
Nossa casa
1974 — O embaixador Wladimir Murtinho autorizou e o galpão vazio se transformou no Teatro Galpão. Em 1977, mais galpões foram ocupados e o Centro de Criatividade virou a nossa casa, encontro das artes, ponto de reunião de artistas.
Ali, encontramo-nos com o público. Fizemos temporadas longas, sucessos com trabalhos até hoje lembrados. Ali, fomos surpreendidos por obras que impactaram e transformaram nosso fazer artístico. Éramos donos daquele espaço democrático. Todo mundo que passou por ali tem uma bela história para contar, como protagonista ou espectador. Formamos público. Formamo-nos como artistas. Nós, brasilienses, estávamos em casa!
Nos anos 1990, em plena atividade e depois de tanto tempo, a burocracia achou que corríamos perigo! Madeira, fios soltos, teto de zinco. Vamos reformar! Fecha e espera. A reforma demorou tanto! O ânimo esfriou. Nunca mais voltou a ser o mesmo. Ainda assim, a sensação de pertencimento continuava. Com muito esforço, com equipamentos próprios, com muita garra, enfrentamos a falta de políticas culturais permanentes, e o rebatizado Espaço Cultural Renato Russo ainda era nosso.
Agora, fechado de novo! Tristeza. Apreensão.
Já perdemos o Cine Cultura, a Concha Acústica, os teatros do Centro de Convenções, o Teatro Helena Barcelos da UnB e o Teatro Nacional, fechado para reforma (perigo!), além de tantos outros espaços culturais abandonados.
SOCORRO!
Por: Diego Ponce de Leon - Correio Braziliense - 03/06/2014




