Há uma semelhança evidente entre os esquisitos totens instalados em Brasília e a obra de Rubem Valentim, como já apontou o arquiteto Carlos Magalhães. Se o autor quis atar um fio de reverência entre a invasão das placas publicitárias e o contundente artista plástico baiano-brasiliense, não conseguiu disfarçar o mal que os picolés pretos fizeram à paisagem urbana da primeira cidade tombada do mundo.
O contraste entre as cores gritantes da obra de Valentim e o preto soturno dos totens tornou a semelhança ainda mais constrangedora. Não menos desconcertante foi o fato de o DER, o Departamento de Estradas de Rodagem do DF, ter autorizado a instalação dos painéis sem consultar o Iphan. Ou como declarou o presidente do IAB-DF, Thiago de Andrade, à repórter Ariadne Sakkis: “O DER ter jurisdição sobre a faixa de domínio não quer dizer que ele não deve pensar na cidade como um todo e que pode fazer o que quiser. É uma questão de unidade, de programação visual. É um desrespeito à cidadania.”
Ainda mais espantoso, terrivelmente espantoso: o equipamento destinado à publicidade foi espalhado pela cidade cuja sinalização é considerada obra de arte e faz parte do acervo permanente do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, desde 2012. Ainda repetindo Thiago de Andrade: “A cidade tem uma sinalização consagrada pela qualidade, bem fundamentada, estudada, referência internacional. Conquistamos isso a duras penas para alguém jogar isso fora.”
Os estranhos painéis que, da noite para o dia, invadiram a cidade “representam uma das piores formas de poluição visual que o Plano Piloto já viu”, bem observou o arquiteto Frederico Flósculo, professor da UnB. “Além disso, o totem contém algo perigoso: oito pontas agudas nas extremidades, que podem machucar pedestres”.
A peça pontiaguda se sobressai na paisagem, como um entulho vindo de um estranho planeta soturno. A plenitude vazia das lonjuras brasilienses fica poluída facilmente. Muito mais, pelas interferências de mau gosto, que interceptam o olhar tão acostumado a correr, desimpedido, pela cidade derramada e bucólica, como escreveu Lucio Costa. “É um monumento à tolice”, completou o professor Flósculo.
O Iphan será consultado pela empresa Embrasil-EU, dona das placas. O que é temerário, a se levar em conta as mais recentes decisões do órgão responsável pela defesa do tombamento da cidade. O Correio de hoje informa que o líder do governo na Câmara Legislativa, Chico Vigilante, antecipou que o diretor-geral do DER, Fauzi Nacfur, vai mandar retirar os totens.
Até que se confirme a decisão, o Plano Piloto continuará sendo desrespeitado, descaracterizado e desprezado com a instalação de 178 placas em quatro vias sob o domínio do DER. Note-se que os mesmos personagens que propõem, projetam e aceitam essa intervenção nefasta se deleitam com a beleza ordenada e limpa de Paris, de São Petersburgo ou de Veneza, três outros patrimônios da humanidade.
Por: Conceição Freitas - Crônica da Cidade - Correio Braziliense - 08/05/2014
O contraste entre as cores gritantes da obra de Valentim e o preto soturno dos totens tornou a semelhança ainda mais constrangedora. Não menos desconcertante foi o fato de o DER, o Departamento de Estradas de Rodagem do DF, ter autorizado a instalação dos painéis sem consultar o Iphan. Ou como declarou o presidente do IAB-DF, Thiago de Andrade, à repórter Ariadne Sakkis: “O DER ter jurisdição sobre a faixa de domínio não quer dizer que ele não deve pensar na cidade como um todo e que pode fazer o que quiser. É uma questão de unidade, de programação visual. É um desrespeito à cidadania.”
Ainda mais espantoso, terrivelmente espantoso: o equipamento destinado à publicidade foi espalhado pela cidade cuja sinalização é considerada obra de arte e faz parte do acervo permanente do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, desde 2012. Ainda repetindo Thiago de Andrade: “A cidade tem uma sinalização consagrada pela qualidade, bem fundamentada, estudada, referência internacional. Conquistamos isso a duras penas para alguém jogar isso fora.”
Os estranhos painéis que, da noite para o dia, invadiram a cidade “representam uma das piores formas de poluição visual que o Plano Piloto já viu”, bem observou o arquiteto Frederico Flósculo, professor da UnB. “Além disso, o totem contém algo perigoso: oito pontas agudas nas extremidades, que podem machucar pedestres”.
A peça pontiaguda se sobressai na paisagem, como um entulho vindo de um estranho planeta soturno. A plenitude vazia das lonjuras brasilienses fica poluída facilmente. Muito mais, pelas interferências de mau gosto, que interceptam o olhar tão acostumado a correr, desimpedido, pela cidade derramada e bucólica, como escreveu Lucio Costa. “É um monumento à tolice”, completou o professor Flósculo.
O Iphan será consultado pela empresa Embrasil-EU, dona das placas. O que é temerário, a se levar em conta as mais recentes decisões do órgão responsável pela defesa do tombamento da cidade. O Correio de hoje informa que o líder do governo na Câmara Legislativa, Chico Vigilante, antecipou que o diretor-geral do DER, Fauzi Nacfur, vai mandar retirar os totens.
Até que se confirme a decisão, o Plano Piloto continuará sendo desrespeitado, descaracterizado e desprezado com a instalação de 178 placas em quatro vias sob o domínio do DER. Note-se que os mesmos personagens que propõem, projetam e aceitam essa intervenção nefasta se deleitam com a beleza ordenada e limpa de Paris, de São Petersburgo ou de Veneza, três outros patrimônios da humanidade.
Por: Conceição Freitas - Crônica da Cidade - Correio Braziliense - 08/05/2014

