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Obstáculos nos planos de Roriz

Políticos do DF acreditam no potencial de votos do ex-governador para eleger com a própria candidatura uma bancada na Câmara Legislativa, mas há desconfiança quanto à possibilidade de ele concorrer sem esbarrar na Lei da Ficha Limpa.
Ex-governador aceitou disputar mandato de distrital e teve o apoio da mulher, Weslian, e da filha Liliane, que será vice na chapa de Arruda.
O anúncio de que Joaquim Roriz (PRTB) deverá disputar as eleições deste ano como candidato a deputado distrital surpreendeu o meio político da capital da República. Afinal, o cacique do clã Roriz ocupou cargos de poder, como governador e senador e conta com fiel eleitorado no Distrito Federal. Pré-candidatos ao Buriti e presidentes de partidos são unânimes em reconhecer o potencial meteórico de votos que Roriz poderia conquistar em uma inédita disputa à Câmara Legislativa, mas há dúvidas se a saúde e a Justiça permitirão que os planos do ex-governador se concretizem. Além de sofrer de doença renal crônica e estar na fila para um transplante de rim, Roriz está inelegível até 2023 pela Lei da Ficha. Seus advogados, no entanto, creem ser possível uma reviravolta no caso.

A escolha por uma disputa à Câmara Legislativa dá a Roriz a vantagem de não se desgastar tanto quanto numa corrida ao Palácio do Buriti. Nesse contexto, caso sua pré-candidatura se viabilize, haveria um potencial de puxar outros candidatos da coligação e montar uma boa bancada no Legislativo, composta por 24 cadeiras. Os interlocutores do ex-governador estimam que ele poderia carregar até três candidatos, de acordo com a regra da proporcionalidade eleitoral. Para eleger um deputado distrital, são necessários cerca de 65 mil votos.

Na opinião do presidente do PT, Roberto Policarpo, no entanto, esse potencial eleitoral teria apenas a capacidade de reorganizar, em torno de Roriz, os votos da direita. “Para o PT, que sempre o enfrentou nas eleições, nada muda, pois sua candidatura não interfere no eleitorado petista. Já para o eleitor que não vota com o PT, mais ligado à direita, a intenção do Roriz pode configurar uma centralização dos votos que esse grupo poderia conquistar. Dessa forma, Roriz poderia até ser bem votado e levar outros correligionários, mas o quadro seria o mesmo que eles conseguiriam sem o ex-governador na disputa”, compara.

Pré-candidato do PSol ao GDF, Toninho disputou com Roriz o governo em 2010, quando a campanha acabou sendo conduzida pela esposa, Weslian Roriz, que foi para o segundo turno contra Agnelo Queiroz. “Mesmo contra toda a prática retrógrada, conservadora e atrasada de fazer política do Roriz, todos devemos reconhecer nele uma liderança inconteste, que promete carrear para si muito votos caso dispute a Câmara Legislativa. A única ressalva é saber se ele chegará até o fim, tanto pela sua saúde, quanto pelos empecilhos jurídicos que o ameaçam”, ressalta. Para Toninho, a estratégia do grupo de Roriz foi acertada. “É uma atitude inteligente, que pode manter seu partido e sua coligação no poder e, inclusive, ampliá-lo”, analisa.
Conforme revelado ontem pelo Correio, Roriz aceitou convite do empresário Luiz Estevão, presidente regional do PRTB, para concorrer à Câmara Legislativa. A decisão foi tomada em almoço na casa do ex-governador no Park Way e teve o apoio da mulher dele, Weslian Roriz, e das filhas que estão na política, a deputada federal Jaqueline Roriz (PMN) e a distrital Liliane Roriz (PRTB).

Apoio
A chapa até então formada em torno de Roriz traz como candidato ao governo o ex-governador José Roberto Arruda (PR) e como vice, sua filha caçula, Liliane. Segundo aliados próximos a Arruda, o ex-governador recebeu a notícia da candidatura de Roriz com entusiasmo. Para o grupo, Roriz fortalece a coligação e abre a possibilidade de eleição de outros candidatos à Câmara Legislativa.

O presidente do DEM, Alberto Fraga, também comemorou a decisão de Roriz, mas ressaltou sua desconfiança de que o projeto vingue. “Todos nós gostamos dele e queremos vê-lo bem. Falando mais com o coração do que com a razão, poderia dizer que, ainda que a disputa para a Câmara seja menos árdua do que para o Executivo, sua saúde inspira cuidados”, diz. Sem rumo definido para as eleições de outubro, Fraga cobra, agora, a vaga para o Senado na chapa de Arruda e Liliane Roriz. “Creio que eu e a deputada Eliana Pedrosa (PPS) somos os nomes naturais para disputar essa vaga”, confia o ex-deputado.

No PSDB, o pré-candidato ao governo, o deputado Luiz Pitiman, também considerou acertada a estratégia de Roriz. “Ainda que o ex-governador tenha capacidade de ser eleito governador, esse projeto pode ser uma grande retomada para a família Roriz”, acredita. Para Pitiman, a eleição com a presença de Roriz pode atrapalhar os planos de reeleição do PT. “Creio que o Roriz, que sempre se colocou contrário à esquerda radical do PT, poderá trazer votos em outros campos da direita e fortalecer o palanque do Aécio Neves. Vale lembrar que foram Roriz e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) quem trouxeram o Fundo Constitucional do Distrito Federal”, crê.

Novo julgamento
Pela Lei da Ficha Limpa, Roriz está inelegível porque renunciou ao mandato de senador, em 2007, quando já tramitava uma representação que podia levar à sua cassação. O veto vale até 2023, oito anos depois do encerramento do mandato. Contudo, a defesa de Roriz crê ser possível reverter esse quadro em novo julgamento nas próximas eleições. Isso porque o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) teve sua composição alterada desde a criação da lei, em 2010.

Para saber mais - Derrocada pelo caso da bezerra
Em 20007, cinco meses depois de ser eleito senador, Joaquim Roriz renunciou ao mandato sob suspeitas levantadas pelo Ministério Público do DF (MPDFT) de que ele estaria envolvido em um suposto esquema de desvios de recursos de contratos do Banco de Brasília (BRB) com a Associação Nacional dos Bancos (Asbace). Durante a investigação, o MP e a Polícia Civil monitoraram os telefones do então presidente do BRB, Tarcísio Franklin de Moura, e interceptaram uma conversa, em março de 2007, em que ele trata com Roriz da partilha de um cheque de R$ 2,2 milhões do Banco do Brasil assinado pelo empresário Nenê Constantino. Segundo Roriz, parte dos valores do cheque seriam usados como empréstimo para que Roriz adquirisse uma bezerra. O episódio acabou conhecido como o caso da “Bezerra de ouro” e provocou a queda política do então senador. Neste mês, a Justiça, em primeira instância, absolveu Roriz das acusações de favorecimento e não considerou ilegal o desconto do cheque pelo BRB.


POR: » ARTHUR PAGANINI - CORREIO BRAZILIENSE - 02/05/2014

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