Com quatro décadas de experiência, marqueteiro avalia o índice dos cidadãos que não sabem em quem votar no DF como acima da média.
“Nesses 38 anos, aprendi que é preciso ter humildade com a sua excelência, o eleitor. Tem que ter respeito por ele, coisa que os políticos nem sempre têm”
“Nas eleições majoritárias, as pessoas estão pensando mais, votando com mais consciência, decidindo mais tarde”
Um dos principais nomes do marketing político do Brasil, com quase quatro décadas de atuação, o jornalista e publicitário Chico Santa Rita se surpreendeu com o alto número de eleitores indecisos nas primeiras pesquisas realizadas em Brasília. Alguns levantamentos apontam percentuais superiores a 70% de cidadãos que ainda têm dúvidas sobre qual nome escolher para a corrida eleitoral de outubro. “A cidade passou por situações que deixaram a população desapontada e até um pouco raivosa com relação à política. Aqui em Brasília, o número de indecisos é muito maior do que a média normal a menos de cinco meses da eleição”, comenta o especialista.
O jornalista acaba de lançar Batalha final, último livro de uma trilogia que resume sua experiência e expertise nas campanhas eleitorais. Chico já lapidou a imagem de políticos como Mário Covas, Fernando Collor de Mello, Jader Barbalho, Marconi Perillo e Orestes Quércia. Nas próximas eleições, vai atuar na candidatura do tucano Luiz Pitiman, que deve concorrer ao Palácio do Buriti. Uma das receitas é competência. Santa Rita critica a visão que alguns têm do trabalho: o marketing político não faz milagre. “O político tem que fazer bem o seu trabalho”, lembra.
Um bom marqueteiro faz milagre?
De forma alguma. O político tem que fazer bem o seu trabalho. A população brasileira tem evoluído bastante e sinto que há uma melhora qualitativa com relação ao voto majoritário. No voto proporcional, ainda há uma bagunça desgraçada. É uma zona eleitoral. Há uma questão fundamental que é a representatividade, que não é obedecida no Brasil. No Senado, há uma representação numérica. Na Câmara, deveria haver uma representação real, mas não tem. Há estados em que um parlamentar representa 50 mil pessoas e outros, 400 mil. Então, esse voto espalhado faz com que prevaleça o aspecto financeiro. Nas eleições majoritárias, as pessoas estão pensando mais, votando com mais consciência, decidindo mais tarde.
Qual o peso do dinheiro nas campanhas? Em Brasília, nas últimas eleições, houve uma situação inusitada, em que Reguffe, o candidato a deputado federal mais bem votado, fez a campanha mais barata. É uma rara exceção?
Sim, é uma exceção. O caso do Reguffe é uma exceção positiva, assim como o caso do Tiririca é uma exceção negativa. Do Tiririca foi um voto de protesto. Aqui foi um voto consciente. Na disputa proporcional, o peso do dinheiro ainda é muito forte. A eleição proporcional pega basicamente dois tipos de voto, um deles é o voto de opinião, como o do Reguffe. O de protesto também é voto de opinião, apesar de negativo. E tem o voto do caminhão, que é o caminhão de dinheiro que chega às cidades e define o cenário.
A proibição do financiamento privado de campanhas teria impacto positivo?
A proibição das empresas de fazer doações representaria a legalização do caixa dois. O que precisamos é de uma lei forte, de fiscalização e punição. Só assim a coisa funcionaria.
Qual a sua análise sobre o cenário eleitoral de Brasília?
A cidade passou por situações que deixaram a população desapontada e até um pouco raivosa com relação à política. Aqui em Brasília, o número de indecisos é muito maior do que a média normal a menos de cinco meses da eleição. Essa população não merece ter passado por tudo o que passou e ainda enfrentou um governo que também desapontou a população. Isso faz com que as pessoas estejam recolhidas.
O percentual alto de indecisos é um bom campo para o marqueteiro?
É uma situação diferente. Aqui o número de indecisos está relacionado a uma decepção muito grande, que vem se consolidando. A indecisão dos eleitores é um caminho para o marketing político. Quando você analisa o cenário, tem que se questionar: indecisos por quê? A eleição de Brasília sem dúvida nenhuma está absolutamente em aberto. É também um fato que não se repete em outros locais. Em São Paulo, em Minas Gerais, em Pernambuco, por exemplo, você tem um encaminhamento, pelo menos.
Qual o peso da disputa nacional para a eleição de governador do DF?
A eleição nacional também é uma disputa indefinida. Em Brasília, sem dúvida nenhuma, haverá influência. O Aécio (Neves) é muito conhecido na capital. A cidade tem uma população mineira grande. Ele foi senador por oito anos, foi presidente da Câmara, tem uma história em Brasília. Por outro lado, você tem o governo Dilma aqui. E tem a Marina que ganhou a eleição em 2010 no DF. Mas, com relação ao voto da Marina, está se cometendo um equívoco. Ela pode até repetir a votação, mas seria eventual. Vai depender das circunstâncias na época da eleição. Até porque ela não será candidata. Nesses 38 anos, aprendi que é preciso ter humildade com a sua excelência, o eleitor. Tem que ter respeito por ele, coisa que os políticos nem sempre têm. Os cenários não se repetem, as eleições de quatro anos atrás não têm nada a ver com as eleições de hoje. O quadro de Brasília é completamente diferente.
Qual será a importância da internet e das redes sociais na disputa deste ano?
O peso da internet é muito relativo. Não é catalisadora de votos, tem se prestado, como na eleição do Obama, a ser um grande instrumento de mobilização. O que vemos é um descrédito muito grande por conta dos excessos que se comete. Estão usando mal, para achincalhar, para agredir. Isso leva a uma queda da credibilidade da internet como captadora de votos. É mobilizadora. Nessa área, é importante, mas a internet brasileira está desacreditada.
O resultado da Copa do Mundo será determinante na corrida eleitoral?
Não há até agora um clima de Copa. Se o Brasil ganhar, não vai ser mérito do governo. A vitória do Brasil daria mérito só ao Felipão. O ônus já tem. A derrota vai aumentar um pouco esse ônus.
Por: Helena Mader - Correio Braziliense - 25/05/2014
“Nesses 38 anos, aprendi que é preciso ter humildade com a sua excelência, o eleitor. Tem que ter respeito por ele, coisa que os políticos nem sempre têm”
“Nas eleições majoritárias, as pessoas estão pensando mais, votando com mais consciência, decidindo mais tarde”
Um dos principais nomes do marketing político do Brasil, com quase quatro décadas de atuação, o jornalista e publicitário Chico Santa Rita se surpreendeu com o alto número de eleitores indecisos nas primeiras pesquisas realizadas em Brasília. Alguns levantamentos apontam percentuais superiores a 70% de cidadãos que ainda têm dúvidas sobre qual nome escolher para a corrida eleitoral de outubro. “A cidade passou por situações que deixaram a população desapontada e até um pouco raivosa com relação à política. Aqui em Brasília, o número de indecisos é muito maior do que a média normal a menos de cinco meses da eleição”, comenta o especialista.
O jornalista acaba de lançar Batalha final, último livro de uma trilogia que resume sua experiência e expertise nas campanhas eleitorais. Chico já lapidou a imagem de políticos como Mário Covas, Fernando Collor de Mello, Jader Barbalho, Marconi Perillo e Orestes Quércia. Nas próximas eleições, vai atuar na candidatura do tucano Luiz Pitiman, que deve concorrer ao Palácio do Buriti. Uma das receitas é competência. Santa Rita critica a visão que alguns têm do trabalho: o marketing político não faz milagre. “O político tem que fazer bem o seu trabalho”, lembra.
Um bom marqueteiro faz milagre?
De forma alguma. O político tem que fazer bem o seu trabalho. A população brasileira tem evoluído bastante e sinto que há uma melhora qualitativa com relação ao voto majoritário. No voto proporcional, ainda há uma bagunça desgraçada. É uma zona eleitoral. Há uma questão fundamental que é a representatividade, que não é obedecida no Brasil. No Senado, há uma representação numérica. Na Câmara, deveria haver uma representação real, mas não tem. Há estados em que um parlamentar representa 50 mil pessoas e outros, 400 mil. Então, esse voto espalhado faz com que prevaleça o aspecto financeiro. Nas eleições majoritárias, as pessoas estão pensando mais, votando com mais consciência, decidindo mais tarde.
Qual o peso do dinheiro nas campanhas? Em Brasília, nas últimas eleições, houve uma situação inusitada, em que Reguffe, o candidato a deputado federal mais bem votado, fez a campanha mais barata. É uma rara exceção?
Sim, é uma exceção. O caso do Reguffe é uma exceção positiva, assim como o caso do Tiririca é uma exceção negativa. Do Tiririca foi um voto de protesto. Aqui foi um voto consciente. Na disputa proporcional, o peso do dinheiro ainda é muito forte. A eleição proporcional pega basicamente dois tipos de voto, um deles é o voto de opinião, como o do Reguffe. O de protesto também é voto de opinião, apesar de negativo. E tem o voto do caminhão, que é o caminhão de dinheiro que chega às cidades e define o cenário.
A proibição do financiamento privado de campanhas teria impacto positivo?
A proibição das empresas de fazer doações representaria a legalização do caixa dois. O que precisamos é de uma lei forte, de fiscalização e punição. Só assim a coisa funcionaria.
Qual a sua análise sobre o cenário eleitoral de Brasília?
A cidade passou por situações que deixaram a população desapontada e até um pouco raivosa com relação à política. Aqui em Brasília, o número de indecisos é muito maior do que a média normal a menos de cinco meses da eleição. Essa população não merece ter passado por tudo o que passou e ainda enfrentou um governo que também desapontou a população. Isso faz com que as pessoas estejam recolhidas.
O percentual alto de indecisos é um bom campo para o marqueteiro?
É uma situação diferente. Aqui o número de indecisos está relacionado a uma decepção muito grande, que vem se consolidando. A indecisão dos eleitores é um caminho para o marketing político. Quando você analisa o cenário, tem que se questionar: indecisos por quê? A eleição de Brasília sem dúvida nenhuma está absolutamente em aberto. É também um fato que não se repete em outros locais. Em São Paulo, em Minas Gerais, em Pernambuco, por exemplo, você tem um encaminhamento, pelo menos.
Qual o peso da disputa nacional para a eleição de governador do DF?
A eleição nacional também é uma disputa indefinida. Em Brasília, sem dúvida nenhuma, haverá influência. O Aécio (Neves) é muito conhecido na capital. A cidade tem uma população mineira grande. Ele foi senador por oito anos, foi presidente da Câmara, tem uma história em Brasília. Por outro lado, você tem o governo Dilma aqui. E tem a Marina que ganhou a eleição em 2010 no DF. Mas, com relação ao voto da Marina, está se cometendo um equívoco. Ela pode até repetir a votação, mas seria eventual. Vai depender das circunstâncias na época da eleição. Até porque ela não será candidata. Nesses 38 anos, aprendi que é preciso ter humildade com a sua excelência, o eleitor. Tem que ter respeito por ele, coisa que os políticos nem sempre têm. Os cenários não se repetem, as eleições de quatro anos atrás não têm nada a ver com as eleições de hoje. O quadro de Brasília é completamente diferente.
Qual será a importância da internet e das redes sociais na disputa deste ano?
O peso da internet é muito relativo. Não é catalisadora de votos, tem se prestado, como na eleição do Obama, a ser um grande instrumento de mobilização. O que vemos é um descrédito muito grande por conta dos excessos que se comete. Estão usando mal, para achincalhar, para agredir. Isso leva a uma queda da credibilidade da internet como captadora de votos. É mobilizadora. Nessa área, é importante, mas a internet brasileira está desacreditada.
O resultado da Copa do Mundo será determinante na corrida eleitoral?
Não há até agora um clima de Copa. Se o Brasil ganhar, não vai ser mérito do governo. A vitória do Brasil daria mérito só ao Felipão. O ônus já tem. A derrota vai aumentar um pouco esse ônus.
Por: Helena Mader - Correio Braziliense - 25/05/2014

