Pesquisa sobre tolerância do brasileiro em relação à violência sexual provoca perplexidade e indignação nas redes sociais
Para Maria José Rosado, do Católicas pelo Direito de Decidir, a pesquisa confirma a ideia da "mulher como objeto".Por: Amanda Almeida - Correio Braziliense - 29/03
“Eu não mereço ser estuprada.” O clamor, ilustrado por fotos de mulheres seminuas, tomou conta das redes sociais, ontem, depois da divulgação de estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre violência sexual que revelou o lado machista do brasileiro. Entre os dados divulgados, por exemplo, está o de que 65,1% dos entrevistados concordam com a afirmação “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas.” O alto índice de tolerância da sociedade com a violência e o abuso sexual também assustou especialistas. Para eles, o Brasil ainda é dominado por um pensamento que defende a supremacia masculina.
A pesquisa do Ipea reforça a tese de que a maior parte dos brasileiros ainda acha que a mulher é culpada pelo estupro. Chamados a se posicionar diante da sentença “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”, 58,5% dos entrevistados concordaram total ou parcialmente. A reação aos resultados da pesquisa na internet foi imediata. Foi criada até uma página entitulada “Eu não mereço ser estuprada”, na qual incentiva mulheres a tirar emfotos de protesto. Até a noite de ontem, 10,5 mil usuários prestaram apoio à iniciativa.
A presidente Dilma Rousseff também usou uma rede social para comentar o levantamento do Ipea. “Pesquisa do @ipeaonline mostrou que a sociedade brasileira ainda tem muito o que avançar no combate à violência contra a mulher. Tolerância zero à violência contra a mulher. #Respeito”, postou a presidente.
“Fiquei espantada. A sociedade continua com pensamento machista. O que mais me assustou foi ver que, mais do que aceitar, as pessoas produzem o crime. Porque, ao dizerem que as mulheres merecem ser atacadas, os brasileiros assumem que fazem isso com naturalidade. É lamentável”, diz Flávia Timm, pesquisadora em gênero e violência contra a mulher da Universidade Católica. Ela diz que o poder público deve ajudar a combater esse tipo de pensamento fortalecendo as políticas públicas para a mulher.
Já o sociólogo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Ignácio Cano contesta o levantamento. “Fiquei com a impressão de que houve algum problema na pesquisa, como uma dificuldade dos entrevistados de entender a pergunta. Duvido que a maior parte dos brasileiros creiaque uma mulher mereça ser atacada porque está de minissaia. Mas a pesquisa, em geral, mostra lamentavelmente o que a gente já sabe: a culpabilização da mulher e o machismo da sociedade”, diz.
Religião
Integrante do grupo feminista Católicas pelo Direito de Decidir, Maria José Rosado, de 68 anos, diz que a concordância com a afirmação de que a mulher merece ser atacada é “trágica”. “Boa parte da população não ver o estupro como crime é uma coisa tremenda. Revela a concepção da mulher como objeto, como ser que pode ser agredido, desrespeitado. Não tem liberdade de se vestir e se comportar como quer”, lamenta.
Maria José atribui parte da culpa por essa postura a igrejas conservadoras. “A gente tem ainda uma sociedade extremamente machista na sua forma de pensar. É cultural, respaldado por uma onda de religiosidade extremamente conservadora, que corrobora a manutenção dessa cultura. É a cultura da morte. Em parte, das igrejas que continuam a veicular a ideia de que o lugar mais adequado para a mulher é dentro de casa. Não somos públicas. Quando somos públicas, merecemos ser violentadas?”
Para Maria José, a pesquisa “acende sinal de alerta”. “Uma ação mais forte e contundente dos gestores, com campanhas, disseminação de serviços de atendimentos a mulheres e conscientização dos homens. Eles precisam nos ver como companheiras. E não como propriedades”, ressalta.
Artigo por Conceição Freitas
Fui ou não fui estuprada?
Posso inferir que terão sido poucas as mulheres que não tenham se feito essa pergunta, tenha sido ela formulada de modo consciente ou crispado a alma sem que tenha se revelado claramente. As mulheres da minha geração pegaram carona na das duas gerações imediatamente anteriores, as libertárias dos anos 1960 e as mulheres do pós-guerra.
O direito ao próprio corpo implicava um risco: o de perder, nesse exercício de liberdade, a difusa fronteira entre o seu desejo e o do outro, entre o que a mulher vislumbra como possibilidade e o que o homem recebe como certeza. Um jogo complicado e, por vezes, perigoso, entre duas espécies dentro de uma mesma espécie, a desamparada e perplexa espécie humana.
Nesse território de perturbações e hesitações, o machismo (de homens, de mulheres, de héteros e de homos) continuou vicejando como antes no quartel de Abrantes. Numa sociedade escravista e patrimonialista como a nossa, que se forjou no estupro secular de índias e negras pelo homem branco, o machismo compôs e compõe a identidade nacional. Nenhum e nenhuma de nós conseguiram escapar desse histórico genético.
Do mesmo modo que a ferida dos três séculos de escravidão continua e continuará aberta por muito tempo na alma brasileira, o machismo seguirá invadindo o corpo e a alma de brasileiras e brasileiros, como vítima ou como algoz. E a pergunta, feita dentro dos limites do pessoal ou no alcance coletivo, seguirá: fui ou não fui estuprada?
“A sociedade brasileira ainda tem muito o que avançar no combate à violência contra a mulher. Tolerância zero à violência contra a mulher. #Respeito”
Dilma Rousseff, presidente, em uma rede social

