Engarrafamento sem a ajuda de fiscais de trânsito
Por: Jane Godoy
O que mais se ouve falar atualmente e, principalmente se sente na pele no tanque de combustível, no cansaço das pernas, no humor e na paciência das pessoas, mais no desgaste do carro e no estresse de não chegar a tempo a nada, chama-se engarrafamento. Ou congestionamento. Ou entulhamento, abarrotamento, ingurgitação, obstrução. Não importa. O que importa é que nós brasilienses pioneiros jamais poderíamos imaginar que a cidade se transformaria no caos que vivenciamos hoje. Todos se gabavam de viver numa cidade de trânsito disciplinado, calmo, com o luxo da onda verde na Avenida W3, que permitia irmos da 516 à 504 ou quase ao Eixo Monumental, num estirão só.
Sabemos muito bem que, com o crescimento da população, que triplicou de tamanho daquele tempo para cá, mais a facilidade que as pessoas passaram a ter para comprar um carro são responsáveis por esse agravamento da situação do trânsito em Brasília. Tudo isso é muito compreensível e até aceitável. Apesar de nunca terem se preocupado com esse crescimento e tampouco tentado preparar a cidade para isso. Com a melhoria do transporte, um estudo mais profundo e cuidadoso ou, como já escrevemos aqui tantas vezes, um mergulho em vias importantes, como a L2, ou fazer viadutos nos cruzamentos mais caóticos, como o que existe na descida para o Lago Sul, ao lado da Casa do Candango. Se repararem, quem vem da L2, no sentido Catedral, mergulha sob o viaduto que conduz o tráfego livremente para a descida da Ponte Costa e Silva. Se lá dá certo, por que não em outros lugares idênticos?
Não queremos aqui “chorar sobre o leite derramado”, pois o que está feito ou que se deixou de fazer não tem jeito. O que causa estranheza e até uma certa revolta por parte dos motoristas é que, não sabemos por que, quando esses gargalos intrincados acontecem, causando uma tremenda e perigosa confusão, não aparece ninguém do Detran para disciplinar aquele caos e, com autoridade, comandar o fluxo de quem desce ou de quem atravessa. Por quê?
Desde criança, observava esses fiscais (era assim que se chamavam) comandando e controlando o trânsito nas grandes cidades, cujos apitos ouço até hoje na memória e me causam uma tremenda nostalgia. Fecho os olhos e os vejo naquele verdadeiro balé com os braços ágeis, com movimentos frenéticos e precisos, indicando o fluxo do trânsito de forma segura. O apito soava como um instrumento musical e nos deixava mais tranquilos.
Essa figura parece mesmo um fantasma do passado, que fica vagando apenas nas nossas lembranças. Como já está tudo danado mesmo, parece-me que eles deixaram o trabalho disciplinador de vez, se esquecendo de uma de suas principais e importantes missões ou seja, cuidar do trânsito! É por isso que a vida do brasiliense está cada vez pior. Estamos abandonados, à deriva, devendo cuidar, nós mesmos, de nosso destino nessa miscelânea que deixaram ficar o trânsito da cidade.
Para dar um exemplo bem simples e conhecido, vide o cruzamento das pistas do Memorial JK e dos Povos Indígenas com a descida do Eixo Monumental, no sentido Rodoviária. Pensem num caos! Dobrem, tripliquem quadrupliquem! Em horário de pico, com o semáforo funcionando. Imaginem sem funcionar! Um Deus nos acuda!
E nós lá, pacientes e ansiosos, avançando perigosamente rumo à travessia do Eixo, encomendando a alma a Deus e rezando para sairmos dali incólumes.
Cadê os homens e seus apitos salvadores? Cadê o Detran e seus homens eficientes para nos salvar daquela confusão? Onde estão? Fazendo o quê? E o trabalhador ali, à deriva, arriscando a própria vida, sendo que sabemos existir um verdadeiro batalhão que deveria agir para isso também: tentar consertar o trânsito e aliviar o cotidiano do povo sofrido de Brasília.
Aliás, diga-se de passagem, um povo educado, fino, paciente e cordato. Numa confusão dessa não se ouve uma buzina, um impropério, uma briga ou disputa desleal para conquistar o espaço mínimo que o livrará daquele estresse.
E os homens com suas fardas e apitos? Onde estão? Só existem para preencher multas?
Se cada departamento, cada secretaria, cada órgão não fizer da sua parte, enquanto governo, o que será de nós? Não há como proibir o povo de comprar carro, muito menos os maiores de 18 anos de ter o seu, pois, com o nosso sistema de transporte “primoroso e eficaz”, Brasília é uma cidade em que os moradores têm cabeça, tronco e rodas. Tenho certeza de que, caso o problema fosse resolvido satisfatoriamente, todos deixariam sim os seus carros em casa e desfrutariam das benesses de um sistema de transporte impecável e seguro.
Utopia? Não sei. O que sei é que existem medidas paliativas que resolveriam muito bem o problema dos engarrafamentos até que alguém, munido de uma varinha de condão, solucionasse tudo.
O que falta é vontade, é criatividade, é garra e amor pela cidade pelo povo que paga impostos em dia e não recebe quase nada em troca. É ou não é para isso que todos estão lá?
Coluna 360 Graus - Correio Braziliense - 30/03
Por: Jane Godoy
O que mais se ouve falar atualmente e, principalmente se sente na pele no tanque de combustível, no cansaço das pernas, no humor e na paciência das pessoas, mais no desgaste do carro e no estresse de não chegar a tempo a nada, chama-se engarrafamento. Ou congestionamento. Ou entulhamento, abarrotamento, ingurgitação, obstrução. Não importa. O que importa é que nós brasilienses pioneiros jamais poderíamos imaginar que a cidade se transformaria no caos que vivenciamos hoje. Todos se gabavam de viver numa cidade de trânsito disciplinado, calmo, com o luxo da onda verde na Avenida W3, que permitia irmos da 516 à 504 ou quase ao Eixo Monumental, num estirão só.
Sabemos muito bem que, com o crescimento da população, que triplicou de tamanho daquele tempo para cá, mais a facilidade que as pessoas passaram a ter para comprar um carro são responsáveis por esse agravamento da situação do trânsito em Brasília. Tudo isso é muito compreensível e até aceitável. Apesar de nunca terem se preocupado com esse crescimento e tampouco tentado preparar a cidade para isso. Com a melhoria do transporte, um estudo mais profundo e cuidadoso ou, como já escrevemos aqui tantas vezes, um mergulho em vias importantes, como a L2, ou fazer viadutos nos cruzamentos mais caóticos, como o que existe na descida para o Lago Sul, ao lado da Casa do Candango. Se repararem, quem vem da L2, no sentido Catedral, mergulha sob o viaduto que conduz o tráfego livremente para a descida da Ponte Costa e Silva. Se lá dá certo, por que não em outros lugares idênticos?
Não queremos aqui “chorar sobre o leite derramado”, pois o que está feito ou que se deixou de fazer não tem jeito. O que causa estranheza e até uma certa revolta por parte dos motoristas é que, não sabemos por que, quando esses gargalos intrincados acontecem, causando uma tremenda e perigosa confusão, não aparece ninguém do Detran para disciplinar aquele caos e, com autoridade, comandar o fluxo de quem desce ou de quem atravessa. Por quê?
Desde criança, observava esses fiscais (era assim que se chamavam) comandando e controlando o trânsito nas grandes cidades, cujos apitos ouço até hoje na memória e me causam uma tremenda nostalgia. Fecho os olhos e os vejo naquele verdadeiro balé com os braços ágeis, com movimentos frenéticos e precisos, indicando o fluxo do trânsito de forma segura. O apito soava como um instrumento musical e nos deixava mais tranquilos.
Essa figura parece mesmo um fantasma do passado, que fica vagando apenas nas nossas lembranças. Como já está tudo danado mesmo, parece-me que eles deixaram o trabalho disciplinador de vez, se esquecendo de uma de suas principais e importantes missões ou seja, cuidar do trânsito! É por isso que a vida do brasiliense está cada vez pior. Estamos abandonados, à deriva, devendo cuidar, nós mesmos, de nosso destino nessa miscelânea que deixaram ficar o trânsito da cidade.
Para dar um exemplo bem simples e conhecido, vide o cruzamento das pistas do Memorial JK e dos Povos Indígenas com a descida do Eixo Monumental, no sentido Rodoviária. Pensem num caos! Dobrem, tripliquem quadrupliquem! Em horário de pico, com o semáforo funcionando. Imaginem sem funcionar! Um Deus nos acuda!
E nós lá, pacientes e ansiosos, avançando perigosamente rumo à travessia do Eixo, encomendando a alma a Deus e rezando para sairmos dali incólumes.
Cadê os homens e seus apitos salvadores? Cadê o Detran e seus homens eficientes para nos salvar daquela confusão? Onde estão? Fazendo o quê? E o trabalhador ali, à deriva, arriscando a própria vida, sendo que sabemos existir um verdadeiro batalhão que deveria agir para isso também: tentar consertar o trânsito e aliviar o cotidiano do povo sofrido de Brasília.
Aliás, diga-se de passagem, um povo educado, fino, paciente e cordato. Numa confusão dessa não se ouve uma buzina, um impropério, uma briga ou disputa desleal para conquistar o espaço mínimo que o livrará daquele estresse.
E os homens com suas fardas e apitos? Onde estão? Só existem para preencher multas?
Se cada departamento, cada secretaria, cada órgão não fizer da sua parte, enquanto governo, o que será de nós? Não há como proibir o povo de comprar carro, muito menos os maiores de 18 anos de ter o seu, pois, com o nosso sistema de transporte “primoroso e eficaz”, Brasília é uma cidade em que os moradores têm cabeça, tronco e rodas. Tenho certeza de que, caso o problema fosse resolvido satisfatoriamente, todos deixariam sim os seus carros em casa e desfrutariam das benesses de um sistema de transporte impecável e seguro.
Utopia? Não sei. O que sei é que existem medidas paliativas que resolveriam muito bem o problema dos engarrafamentos até que alguém, munido de uma varinha de condão, solucionasse tudo.
O que falta é vontade, é criatividade, é garra e amor pela cidade pelo povo que paga impostos em dia e não recebe quase nada em troca. É ou não é para isso que todos estão lá?
Coluna 360 Graus - Correio Braziliense - 30/03

