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Restaurantes em Brasília: Panela de pressão

O fechamento de cinco casas na Rua dos Restaurantes expõe a crise do setor

                                 Comerciais da 404 e 405 Sul: insegurança e falta de estacionamento (Foto: Roberto Castro)

Por Guilherme Lobão e Paulo Lannes - Veja Brasília.

Decorreram quase seis meses do protesto dos donos de restaurante pela redução da carga tributária para o setor. Mas somente agora a crise anunciada naquele ato de 15 de agosto de 2013, na Rodoviária do Plano Piloto, começa a expor suas maiores feridas. De outubro do ano passado até janeiro, cinco casas fecharam apenas no conjunto das comerciais da 404/405 Sul, apelidado de Rua dos Restaurantes. Além disso, outros dois estabelecimentos ainda ativos foram postos à venda. Ao todo, em Brasília, pelo menos dez outros endereços encerraram suas atividades somente nesse período, a exemplo do Couvert, Carneiro e Picanha, Barolo, Spaghetto & Grill, A Bela Sintra (e, logo depois, o Trindade, que se instalara no mesmo local). Em janeiro, quase simultaneamente, fecharam as portas o japonês Suri Sushi, o italiano Peperoncino e o português Mouraria. Esse último, o segundo mais antigo da quadra, aberto desde 1989, não resistiu ao aumento do aluguel.

Não é exagero dizer que nunca antes na história de Brasília (parafraseando um ex-presidente) tantos lugares fecharam ou foram postos à venda ao mesmo tempo. Os motivos que encurtam a vida das empresas são variados, e vão desde a escassez de mão de obra qualificada, passando pela falta de estacionamento até a precariedade do transporte público. Mas o mais letal de todos é a combinação entre o elevado custo da operação e o comportamento da clientela local, cada vez menos propensa a pagar preços altos. O restaurateur e presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-DF), Jaime Recena, é categórico ao afirmar que o setor foi atingido em cheio pela pesada carga tributária e pelo atual momento da economia. “Cerca de 20% das empresas ligadas ao ramo estão operando hoje com sérias dificuldades financeiras”, alerta.


“Cerca de 20% das empresas do ramo estão operando com sérias dificuldades financeiras.” 
Jaime Recena, presidente da Abrasel-DF 

Somado a esse cenário, um fator novo vem contribuindo para agravar a situação: a violência. Com o aumento do índice de ocorrências na cidade, muitos estabelecimentos estão enfrentando problemas — com repercussão direta na planilha de custos. Chef e dono do Olivae, Agenor Maia está na 405 Sul há apenas seis meses e já precisou investir em mais proteção: “Chego a ficar paranoico olhando as câmeras do restaurante quando ele está fechado. Reforcei a segurança e enchi as portas de grades”. O problema atinge também sua equipe. Uma de suas funcionárias, que preferiu não se identificar, foi assaltada dentro do ônibus de volta para casa, em Santa Maria, na madrugada do dia 27 de janeiro. “Por causa disso, preciso agora dispensá-la mais cedo”, afirma Maia. Pioneiro da Rua dos Restaurantes, o austríaco Friedrich Fritz, cujo sobrenome batiza uma conhecida casa de comida alemã, recebe uma média de 2000 clientes por mês. Em 3 de fevereiro, o lugar foi invadido à noite e teve seu caixa assaltado.

Mas o caldo, com o perdão do trocadilho, está longe de derramar por completo. De acordo com especialistas na área, raramente um endereço gastronômico se transforma em outro tipo de comércio. O mais natural é que uma outra casa abra no mesmo ponto (veja o quadro abaixo). Existem também diversas redes se estabelecendo em Brasília, grifes que fazem sucesso no eixo Rio-São Paulo e desembarcam aqui atrás do poder aquisitivo da clientela. Diante desse cenário, não há perigo de ficarmos sem opções para almoçar ou jantar fora. A questão é a rotatividade. Se você gosta muito de um determinado restaurante japonês, corre o risco de vê-lo desaparecer em poucos meses para dar lugar a um boteco ou a um estabelecimento de carnes. Corretor especializado em transações dessa natureza, André Gil diz que em três anos de trabalho no seu site (www.vendorestaurantes.com.br) nunca viu, de fato, tantos lugares à venda, mas pondera que também há muitos compradores. “Essa dinâmica favorece o setor”, avalia. Um dado é certo: a água está fervendo. 

(Foto: Roberto Castro)

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