Por: Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br - Cronica da Cidade.
Como disse o poeta Mário Quintana, a morte não melhora ninguém. De fato, mas ela tem o poder de iluminar certos personagens sob uma nova luz dramática. Escrevo ainda sob o abalo da notícia da morte de Glênio Bianchetti . Ele morreu aos 86 anos, teve uma vida plena, produziu muito e deixou um rico legado. Mas nenhum argumento racional consegue reparar o sentimento da perda porque Glênio era uma daquelas pessoas raras pelo talento, pela integridade e pela generosidade.
Com espírito sagaz, Darcy Ribeiro trouxe Glênio para lecionar no célebre Instituto de Artes da Universidade de Brasília, com Athos Bulcão, Nelson Pereira dos Santos, Rogério Duprat, Paulo Emílio Salles Gomes, entre outras pessoas brilhantes, pois não queria que o cenário modernista convivesse com a mediocridade cultural.
Os futuros profissionais das ciências exatas passariam pelo Instituto, uma vez que, na visão de Darcy, os engenheiros não poderiam se limitar a ser androides competentes. Precisavam haurir uma visão humanista para exercer os seus ofícios com uma visão social.
A vertente modernista do Clube de Gravura de Porto Alegre, criado por Glênio e Carlos Scliar, abraçou o olhar social na arte. Ele sempre preferiu cenas triviais de paisagens, personagens cotidianos, evocações religiosas ou festas populares, transfiguradas pela vibração da cor. Mas o artista era indissociável do educador.
Glênio é um dos fundadores da UnB não apenas no sentido de ser um pioneiro, mas principalmente no de afirmar uma tradição fecunda. Não era um artista-burocrata ou professor-funcionário público. Tanto assim é que, depois da implosão do núcleo inicial formado por Darcy, com a demissão coletiva de mais de 200 professores em 1963, em repúdio às invasões dos militares ao câmpus da UnB, Glênio continuou a e exercer a vocação de arte-educador no ateliê ou na escola Cresça, criada numa associação com a mulher, Ailema, e com Maria do Socorro Coutinho.
O Cresça era, simultaneamente, uma escola e um ponto de formação e referência na formação da arte. Com uma personalidade agregadora, a casa de Glênio e Ailema sempre foi uma extensão da escola, e o trabalho se desdobrava facilmente na amizade e na alegria das festas.
Ele era uma das pessoas que guardavam o olhar generoso, modernista e humanista que animou o período utópico de Brasília. Desde quando chegou à nova capital, a cidade passou por mudanças vertiginosas e muitos atribuem a esses valores a pecha de nostalgia.
É certo que Brasília tende a se transformar em mero cenário para um faroeste caboclo. No entanto, não concordo com essa avaliação de nostalgia. São pessoas da qualidade humana de Glênio que constituem a alma de uma cidade. Felizmente, ele deixou um legado de humanismo transmitido a, no mínimo, duas gerações e que continua vivo no que Brasília tem de melhor. Aquela vibração de cores da pintura de Glênio continua nos atingindo com a sua luz humanista.

