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Brasília: Medo na Asa Norte

Quem mora ou trabalha na região reclama da insegurança provocada por assaltos constantes, principalmente a partir da virada do ano. Em apenas uma quadra comercial, houve pelo menos 10 ataques nos últimos meses.
Marcos (de branco), Henrique e Laura trabalham em uma loja de intercâmbio arrombada por assaltantes na 403 Norte: prejuízo de R$ 7 mil.

"Um dia, uma cliente ficou aqui até as 21h. Ao sair, colocou o cartão de crédito e a chave do carro no bolso e disse: "Se levarem a minha bolsa, pelo menos garanto essas duas coisas". Estamos cada vez mais enjaulados" Elaine Nogueira, 40 anos, proprietária de um salão de beleza na 403 Norte.

Por: Manoela Alcântara - Luiz Calcagno - Correio Braziliense - 15/02

Comerciantes e moradores da Asa Norte reclamam dos sucessivos assaltos a lojas e a apartamentos. Em um bloco comercial com 12 estabelecimentos, localizado na 403, 10 empresários sofreram com a ação de bandidos nos últimos meses. No prédio ao lado, o porteiro teve todos os pertences levados na última terça-feira. A poucos quilômetros do local, na 710, um oficial da Aeronáutica foi esfaqueado na madrugada de ontem. O golpe atingiu o pulmão do jovem de 25 anos. Ele foi socorrido e encaminhado ao Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF).

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública, em janeiro foram registrados dois roubos em toda a Asa Norte, o que representaria uma queda de 66,7% em comparação com o ano passado. No entanto, somente nas quadras visitadas pelo Correio, foi possível constatar pelo menos quatro assaltos a lojas no primeiro mês de 2014. Diferença explicada pelo consultor em segurança pública George Felipe Dantas: “Isso acontece por descrença da população em dar queixa e até pelo medo de uma represália do criminoso” (leia Palavra de Especialista).

Os relatos dos trabalhadores da região são de medo, prejuízos e descrença nas ações das polícias Militar e Civil. As portas de vidro e a decoração, aos poucos, dão lugar às grades. O investimento para intensificar a segurança privada chega a R$ 10 mil e se amplia também com câmeras e alarmes. 

A última vítima dos ladrões no Bloco A da 403 foi um estabelecimento de intercâmbio. O assalto aconteceu na madrugada de quinta-feira. Foram furtados computadores, monitores e lap tops. Além disso, o diretor regional da empresa, Marcos Sisconeto, 32 anos, viu a violência chegar perto da família dele outra vez em 2014. Tomou uma decisão: vai morar fora do Brasil com a mulher e o filho. “O brigadeiro da Força Aérea Brasileira assassinado em janeiro morava no meu prédio, na 112 Sul. Entrou na garagem 10 minutos depois de mim. Agora, a minha loja foi assaltada. Não é mais seguro viver em Brasília”, conclui.

O prejuízo total foi de R$ 7 mil. O assaltante usou uma tampa de bueiro para arrombar a porta. A gerente da loja, Laura Garcia, 31 anos, conta que, até novembro do ano passado, ela e o consultor da empresa, Henrique Cecílio, 28, viam policiais nas ruas. “Eles caminhavam em dupla, e sempre tinha uma viatura parada no supermercado, localizado no fim da quadra. Há dois meses, eles não aparecem”, reclama Henrique. Em todo o bloco, são poucos os que não têm histórias sobre roubos para contar.

Elaine Nogueira, 40 anos, é dona de um salão de beleza na quadra há dois meses. A anterior narrou a ela três assaltos. Por isso, ela conta com todos os equipamentos privados de segurança e bloqueou a porta dos fundos para ter só um acesso ao local. “Um dia, uma cliente ficou aqui até as 21h. Ao sair, colocou o cartão de crédito e a chave do carro no bolso e disse: ‘Se levarem a minha bolsa, pelo menos garanto essas duas coisas’. Estamos cada vez mais enjaulados”, lamenta. Em outro prédio, uma rede de lanchonetes 24 horas foi assaltada duas vezes em dois meses à mão armada. Cinco funcionários pediram demissão (leia Memória).

Na 710 Norte, o tenente da Aeronáutica Daniel Rodrigues Silva, 25 anos, levou uma facada no peito por volta da 1h45 de ontem. O suspeito de tentar assassinar Daniel, Edilson Marques Oliveira, 23, não roubou nada. A vítima tinha acabado de parar o carro no Bloco B, atrás da comercial, para deixar duas amigas. Segundo o relato de uma das mulheres, o suspeito se aproximou de Daniel e disse algo que ela não entendeu. Em seguida, esfaqueou-o.

O Correio teve acesso a filmagens do momento do ataque ao militar. A câmera mostra o desespero de uma das garotas que acompanhava a vítima. Uma testemunha contou que os números 193 e 192, respectivamente dos bombeiros e do Samu, não atenderam. “O socorro só veio depois que a PM chegou”, relatou uma cabeleireira. Os policiais prenderam Edilson em flagrante.

Estatística

O tenente-coronel Júlio César Lima de Oliveira, comandante do 3º Batalhão (Asa Norte), informou que não há registros oficiais dos casos relatados na 403 Norte. Ele recomenda que as vítimas registrem ocorrência, pois as queixas orientam o policiamento ostensivo. Júlio César lembrou que, no caso da 710, o crime ocorreu logo após uma equipe da PM fazer o monitoramento.

Palavra de especialista Comércios visados

“O número de ocorrência de um fenômeno será sempre maior do que o de registros oficiais do crime. Isso acontece por descrença da população em dar queixa, pela falta de acesso à polícia e até pelo medo de uma represália do criminoso caso a vítima procure as autoridades. Não dá para esperar nada diferente disso diante da epidemia de cocaína e de crack que vivemos. O comércio é um oásis no deserto para os criminosos. É o acesso mais rápido a recursos maiores. O governo tenta passar uma sensação de segurança o tempo todo. As secretarias nem sempre prestam serviço à comunidade. Muitas vezes, na verdade, prestam ao governante. As pessoas têm um medo do crime já tão arraigado, que têm medo de denunciar e acham a denúncia inútil. Nesse momento, temos uma intensificação da segurança privada. O comerciante brasiliense sabe que tem de mostrar essa segurança para que os fregueses frequentem o local. A W3 se transformou em um grande deserto pela falta de segurança. Transformou-se em um lugar melancólico e, como consequência, o crime migra para as entrequadras comerciais. Não temos razão para imaginar que a segurança pública está funcionando.”

George Felipe de Lima Dantas,
consultor em segurança pública

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