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PPCUB: alvo de receio

Moradora do Cruzeiro Velho, Fátima Fernandes reprova a proposta de criação de lotes centrais no Eixo Monumental: "A área verde tem que ser mantida"
Moradores de áreas tombadas admitem não saber detalhes da lei, mas, ao serem informados, preocupam-se.

Depois de passar pela avaliação de especialistas, por discussões entre parlamentares e de receber uma enxurrada de críticas de arquitetos e urbanistas, o polêmico Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB) chega, aos poucos, à sociedade. Comentários contrários ao projeto de lei, em discussão na Câmara Legislativa, invadiram as redes sociais e os blogs criados por brasilienses. Em uma enquete promovida pelo site do Correio, 95,12% dos internautas se manifestaram contra a proposta até as 18h de ontem. As matérias publicadas pelo jornal desde a semana passada receberam dezenas de opiniões sobre o texto enviado pelo Governo do Distrito Federal (GDF) para a análise dos deputados distritais (leia abaixo).

O debate, no entanto, ainda parece distante dos moradores da área tombada de Brasília. A reportagem percorreu ontem diferentes pontos do Plano Piloto, do Cruzeiro, do Sudoeste e do Lago Sul e encontrou diversas pessoas que não conheciam o projeto de lei nem as alterações que ele prevê, mas se mostraram contrárias às propostas depois que elas eram explicadas. “Ouvi falar que ele ameaça o plano de Lucio Costa, mas não sei exatamente o porquê”, reconheceu o aposentado Lourival Lopes, 76 anos, morador da 108 Sul há 52 anos.

Lourival vive com a esposa Vera Cândida Maria de Lima Lopes, 75 anos, em uma das quadras modelo de Brasília. Pelo projeto original do Plano Piloto, quatro superquadras residenciais formariam uma Unidade de Vizinhança e, nela, haveria um jardim de infância, uma escola, um clube, um cinema e um posto de saúde ao alcance dos moradores, sem que eles precisassem pegar o carro. O modelo, porém, só foi de fato colocado em prática na 107, na 307, na 108 e na 308 Sul. O PPCUB dá um uso diferente aos lotes vazios ou ocupados irregularmente no Plano Piloto, no Cruzeiro e no Sudoeste. O governo quer que a iniciativa privada explore esses espaços por meio de concessão de uso, sem especificar exatamente qual destinação será dada aos terrenos. 

O item é visto com preocupação por especialistas e também por Vera e Lourival. “Meus cinco filhos foram batizados na Igrejinha, os mais velhos estudaram na escola da quadra, até hoje frequentamos o Clube de Vizinhança. Gosto de andar a pé, não uso carro para nada aqui, nunca quis me mudar”, contou Vera. “É uma pena que nem todos os moradores do Plano Piloto possam usufruir do que temos aqui”, comentou Maria das Graças Mendes de Oliveira, 73 anos, vizinha do casal. Depois de tomar conhecimento da proposta do projeto, Lourival disse ser contra. “Entendo que a cidade tenha uma dinâmica e que mudanças sejam necessárias. Mas a evolução não significa adulteração e, sim, aprimoramento. Se não der para fazer o previsto pelo plano, que se faça algo que pelo menos se adapte ao espírito original”, defendeu.

Desvio
Segundo os urbanistas, um dos pontos mais preocupantes do PPCUB é a criação de lotes centrais na porção oeste do Eixo Monumental, entre a Praça do Cruzeiro e a Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia). O projeto do Executivo define a utilização para equipamentos públicos culturais e atividades educacionais, comerciais e de prestação de serviços, como restaurantes e similares, mas os especialistas temem o desvio de uso. Moradora do Cruzeiro Velho desde que nasceu e vizinha ao Eixo, a artista Fátima Fernandes, 44 anos, estranhou a proposta. “Isso é área tombada, não podem mudar assim, sem autorização do Niemeyer”, brincou. “Não consigo imaginar esse espaço cheio de comércio. Já temos lojas suficientes no Cruzeiro e no Sudoeste, até um shopping. Essa área verde tem que ser mantida, é o nosso pulmão”, completou.

Outro item polêmico é o adensamento na orla do Lago Paranoá e a permissão para que lotes localizados na beira do espelho d’água sejam subdivididos em tamanhos menores, o que poderia levar ao surgimento de condomínios residenciais onde hoje é proibido. A professora Wânia Bernardini, 53 anos, moradora do Lago Sul, sempre aproveita os espaços públicos do lago aos fins de semana, acha que essa proposta prejudicaria a qualidade de vida dos brasilienses. “Vim de São Paulo para cá há 45 anos, e Brasília é uma cidade gostosa de morar. Não podemos ter mais hotéis na beira do lago, senão não teremos mais acesso à orla. Não podem mudar a paisagem assim”, afirmou.

Conceitos
Para muitos arquitetos e urbanistas, o PPCUB não foi discutido com a sociedade. Antes de o Executivo concluir o PL, quatro audiências públicas foram realizadas, mas os especialistas acusam o governo de não ter divulgado à população todas as mudanças previstas. “Só eram discutidos conceitos e aspectos pontuais. As alterações drásticas não foram apresentadas”, afirma a arquiteta e urbanista Vera Ramos. A última audiência pública acontece amanhã, às 10h, na Câmara Legislativa. 

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