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Jango ao lado de JK no Eixo Monumental

Construção do Memorial da Liberdade João Goulart em Brasília abre controvérsia entre familiares do ex-presidente e defensores da memória de Juscelino Kubitschek, idealizador da capital. Projeto orçado em R$ 15 milhões foi feito por Oscar Niemeyer


Os traços do projeto do prédio lembram o Museu Nacional da República e foram inspirados no duro golpe que se abateu sobre o país em 1964.

Por: Ariadne Sakkis - Correio Braziliense

Em meio a tantos itens controversos do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCub) relativos a novas construções no Eixo Monumental, o único ponto pacificado diz respeito ao Memorial da Liberdade João Goulart. Apesar de estar longe da pauta legislativa, a edificação em homenagem ao presidente deposto pelos militares em 1964 suscita outra polêmica. Há quem diga que levantar um memorial para um presidente que não Juscelino Kubitschek abre um precedente para outros chefes de Estado. 

Há muitos anos, o Instituto João Goulart luta pela criação do espaço dedicado à memória de Jango. A ideia da família, que comanda a instituição sediada no Rio de Janeiro, é contar a história do último presidente eleito antes de o Brasil ser governado por uma ditadura imposta pelas Forças Armadas. 

Em abril deste ano, a Secretaria de Cultura do Distrito Federal formalizou a cessão do terreno no Eixo Monumental, localizado exatamente em frente ao complexo do Exército, o chamado Setor Militar Urbano. Os familiares de Jango esperam inaugurar a pedra fundamental da obra, cujo projeto é de Oscar Niemeyer, no ano que vem, aniversário de 50 anos do golpe. Atualmente, o instituto arrecada fundos, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, no valor de R$ 15 milhões, para executar a planta. 

Se o PPCub for aprovado tal como está — após diversas modificações para retirar tópicos contestados do texto —, o memorial será a única nova edificação permitida no Eixo Monumental. Mas a novidade desagradou a muita gente. Pessoas ligadas à preservação do legado de JK pensam da mesma maneira. Acreditam que apenas Juscelino Kubitschek deve receber a distinção na cidade por ter sido ele o patrono e idealizador de Brasília.

O arquiteto Carlos Magalhães, representante do escritório de Niemeyer em Brasília, é radicalmente contra. “Não deve haver mais nada no Eixo Monumental. Podem construir um memorial para o Jango, mas na cidade natal dele. Daqui a pouco, vão querer fazer memorial de todo mundo. Alguém tem que ter coragem e dizer que não pode”, disparou. 

Neto de Jango e coordenador da Comunicação do instituto, Christopher Goulart acredita que as discussões sobre o assunto são naturais. “Sempre há alguém que pensa diferente. Vejo isso com normalidade. Fizeram críticas à exumação do meu avô, à anulação da sessão que decretou o cargo de vacância. Pensar diferente faz parte do exercício da democracia”, afirmou. 

No entanto, Christopher afirma que não está em discussão levantar o memorial em outra cidade. “O impacto disso em Brasília é muito maior. E não é apenas sobre a figura do Jango, que foi o perseguido nº 1 da ditadura. Diz respeito ao fortalecimento da cidadania, do direito à justiça. É um memorial da liberdade”, rebateu. 

Na visão do subsecretário do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Secretaria de Cultura do DF, José Delvinei, o projeto é de fundamental importância. “A história do Jango, assim como a de JK, marcou Brasília. Temos o maior orgulho de dizer que esse erro crasso será corrigido. E não existe local mais apropriado”, argumentou. 

O projeto arquitetônico foi concebido por Oscar Niemeyer há cerca de oito anos. Em muito se assemelha ao Museu Nacional da República. É composto por uma cúpula oval de 1,7 mil metros quadrados, um salão de exposições e um auditório. Um espelho d’água margeia a estrutura. Um dos pontos altos do desenho é uma flecha vermelha que sai da abóboda, com a inscrição 1964 em uma das extremidades. 

Na descrição do projeto, Niemeyer detalhou: “Quem conhece a história de João Goulart sabe como ele foi violentamente afastado do cargo pelo golpe militar de 1964, que, durante20 anos, pesou sobre o nosso país. E isso eu procurei manter na minha arquitetura da forma mais clara, com uma grande flecha vermelha a atingir a cúpula projetada”. Mas, no íntimo, o arquiteto não apoiava a iniciativa, segundo Silvestre Gorgulho, amigo de Niemeyer e ex-secretário de Cultura do DF. “Ele acabou fazendo o projeto, mas, me disse uma vez, que poderia haver um memorial da República, para todos os presidentes, mas não de um só. Ele mesmo era contra”, garante. 

Investigação
Em 13 e 14 de novembro, peritos trabalharam por 18 horas para exumar o corpo do ex-presidente no cemitério de São Borja (RS). Os restos mortais foram recebidos em Brasília com honras militares. A exumação servirá para apurar a suspeita de que ele tenha sido morto por envenenamento, durante exílio na Argentina, em 1976, o que contraria a versão oficial de que ele foi vítima de um ataque cardíaco. Na última quinta-feira, o Congresso Nacional aprovou projeto de resolução anulando a sessão de abril de 1964 que declarou vago o cargo de presidente. 

"Não deve haver mais nada no Eixo Monumental. Podem construir um memorial para o Jango, mas na cidade natal dele. Daqui a pouco, vão querer fazer memorial de todo mundo. Alguém tem que ter coragem e dizer que não pode"
Carlos Magalhães, arquiteto, representante do escritório de Niemeyer em Brasília

"Sempre há alguém que pensa diferente. Vejo isso com normalidade. Fizeram críticas à exumação do meu avô, à anulação da sessão que decretou o cargo de vacância. Pensar diferente faz parte do exercício da democracia"
Christopher Goulart, neto de Jango e coordenador da Comunicação do Instituto João Goulart



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