As operações policiais contra uma suposta quadrilha de concessão indevida de alvarás para empreendimentos imobiliários me fez lembrar as ameaças feitas ao GDF pelo Ministério Público caso não apresente um plano de restauração do patrimônio em madeira da Vila Planalto; as outras sucessivas ameaças do gênero para ocupações da orla do Lago Paranoá; e, finalmente e mais importante, as graves ameaças ao tombamento do Plano Piloto incluídas no PPCUB, o suposto Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília.
O leitor certamente vai suspeitar de minha sanidade mental, mas os fatos elencados acima me fazem lembrar também de uma foto da ministra Ideli Salvatti publicada na edição de ontem deste matutino e do vídeo viral do rico e tolo Rei do Camarote. Na imagem, a ministra aparece caminhando rumo ao helicóptero conveniado ao Samu (e equipado com maca, tubo de oxigênio e materiais de primeiros socorros). À sua frente, uma mulher, possivelmente servidora pública, carrega três bolsas, bolsões ao estilo da moda. Uma, cor de rosa, está pendurada no ombro esquerdo e as outras duas, pretas, ocupam as duas mãos da moça. A carregadora de bolsas usa um saltinho em terreno de grama irregular, o que certamente deve ter dificultado a tarefa.
A ministra de Relações Institucionais segue com as mãos livres. Na foto, há uma sombra na palma da mão esquerda, o que faz o leitor supor que ela esteja segurando um estojo de óculos. Nada mais, nada menos. Ideli Salvatti se desincumbiu de carregar a própria bolsa, como seus pares, deste e de outros governos, logo se desincumbem da estafante tarefa de girar a maçaneta, abrir e fechar a porta do carro, pôr água no copo, lavar os óculos embaçados e outras empreitadas de igual complexidade.
Não me venham com maquiagens. As prisões e os depoimentos anunciados ontem são rápida varredura na sala de estar, mas o hipopótamo vindo do pântano continua sobejamente enfeitando o ambiente. Do mesmo modo, o percurso da ministra rumo ao helicóptero de mãos livres e tendo à frente uma mulher (de saia, blusa sem mangas, cabelos soltos) carregando três bolsas femininas, é a caricatura do uso abusivo do poder. Vale lembrar a apuração do repórter João Valadares: nos três dias em que a ministra usou a aeronave foram registrados 52 acidentes com 73 feridos.
E o Rei do Camarote, onde entra nisso? Ele é o bobo da corte, é o personagem bisonho do constrangedor espetáculo de poder, riqueza, ostentação e escândalos impunes têm produzido. Ninguém mais quer ser anônimo, remediado, ninguém mais quer ter o próprio tamanho. Estamos mergulhados na ilusão de que somos ou viremos a ser especiais, custe o que custar. Ser tão-somente um cidadão decente parece muito pouco. E os que já são acostumados às farturas do poder farão tudo e qualquer coisa para depenar o patrimônio moderno da humanidade até o último palmo de terra ou para jamais ter que carregar a própria bolsa.
(Blog da Conceição Freitas - CB)
O leitor certamente vai suspeitar de minha sanidade mental, mas os fatos elencados acima me fazem lembrar também de uma foto da ministra Ideli Salvatti publicada na edição de ontem deste matutino e do vídeo viral do rico e tolo Rei do Camarote. Na imagem, a ministra aparece caminhando rumo ao helicóptero conveniado ao Samu (e equipado com maca, tubo de oxigênio e materiais de primeiros socorros). À sua frente, uma mulher, possivelmente servidora pública, carrega três bolsas, bolsões ao estilo da moda. Uma, cor de rosa, está pendurada no ombro esquerdo e as outras duas, pretas, ocupam as duas mãos da moça. A carregadora de bolsas usa um saltinho em terreno de grama irregular, o que certamente deve ter dificultado a tarefa.
A ministra de Relações Institucionais segue com as mãos livres. Na foto, há uma sombra na palma da mão esquerda, o que faz o leitor supor que ela esteja segurando um estojo de óculos. Nada mais, nada menos. Ideli Salvatti se desincumbiu de carregar a própria bolsa, como seus pares, deste e de outros governos, logo se desincumbem da estafante tarefa de girar a maçaneta, abrir e fechar a porta do carro, pôr água no copo, lavar os óculos embaçados e outras empreitadas de igual complexidade.
E o Rei do Camarote, onde entra nisso? Ele é o bobo da corte, é o personagem bisonho do constrangedor espetáculo de poder, riqueza, ostentação e escândalos impunes têm produzido. Ninguém mais quer ser anônimo, remediado, ninguém mais quer ter o próprio tamanho. Estamos mergulhados na ilusão de que somos ou viremos a ser especiais, custe o que custar. Ser tão-somente um cidadão decente parece muito pouco. E os que já são acostumados às farturas do poder farão tudo e qualquer coisa para depenar o patrimônio moderno da humanidade até o último palmo de terra ou para jamais ter que carregar a própria bolsa.

